
Egípcios Brancos ou Negros?
Pan-africanismo, afrocentrismo, identidades e kemetismo (Parte 4)

Dica: leia o texto anterior (Parte 3)
Confirmando: egípcios não são árabes
Muitos egípcios hoje sentem e expressam a sua identidade (egípcia e árabe) e que assim estão inextricavelmente ligados. Mais ainda, enfatizam o papel central que o Egito desempenha no mundo árabe.
Outros, no entanto, continuam ainda acreditando que "o Egito e os egípcios" simplesmente não são árabes, enfatizando a herança, a cultura e a política independentes que o país possui, apontando para os fracassos percebidos das políticas nacionalistas árabes e pan-arabistas.
A antropóloga egípcia Laylah Al-Hamamsy ilustra essa relação moderna entre as duas tendências, afirmando que "à luz de sua história, os egípcios têm consciência de sua identidade nacional e consideram-se, acima de tudo, egípcios”.
O antropólogo lingüístico Niloofar realizou um interessante trabalho de campo no Cairo e percebeu que:
“Historicamente, os egípcios sempre se consideraram distintos dos "árabes" e o fazem na identificação: al-'arab [os árabes] que se referem principalmente aos habitantes dos estados do Golfo e da península arábica. HAERI, Niloofar. "Língua sagrada, pessoas comuns: dilemas da cultura e da política no Egito". Nova Iorque. 2003, p 47

Em toda a história do período dinástico, os egípcios falavam a sua própria língua nativa: a família afro-nilótica. O árabe só veio muitos milênios depois e foi “adotado” pelos governantes após a invasão árabe, sendo gradualmente substituído pelo copta como língua falada oficialmente. Mas, o copta sobreviveu apenas em partes isoladas do Alto Egito, isso até hoje.
Além disso, outras fontes históricas registram que o dialeto árabe-egípcio era uma língua separada no antigo Egito Otomano, mesmo em pleno século XVII, sugerindo que esta língua era falada pela grande maioria dos egípcios.
>>> “Análises recentes de DNA provam que os egípcios não são árabes. Após mais de 10 anos analisando amostras de DNA de centenas de pessoas, o National Geographic Genographic Project (NGGP) descobriu que os egípcios não são árabes como a ‘maioria’ acredita. O estudo apresentou gráficos que mostram a composição genética global dos nativos em cada país. Isso ajuda a responder às perguntas das pessoas sobre etnia, raça e as origens, sendo que apenas 17% dos egípcios são árabes, enquanto 68% da população nativa é norte-africana, 4% são de ascendência judaica, 3% são originários da África Oriental, outros 3% da Ásia Menor e 3% são do Mediterrâneo.” Ou seja, a população nativa deriva de migrações de África, totalizando um 71% de origem africana. (Egypt Independent - Hend Al-Bahary, 17-jan-2017)
Kemet, a terra negra e seus aspectos culturais africanos
>>> África, de 35.000 anos atrás, o mais antigo esqueleto humano encontrado foi no Egito em Luxor (nova Thebas) em 1980, mais precisamente era o “Homem de Nazlet Khater”. O relatório conclui: “O prognatismo alveolar forte combinado com a fossa praenasalis em um crânio africano é sugestivo de morfologia negróide [em forma & estrutura]
>>> 7.000 anos atrás, na Núbia do Sul (Sudão) existiam cidades-aldeias, com descobertas de sítios de caça, agricultura, pesca, fabricação de cerâmica, trabalhando com o cobre, exibido em belas esculturas. Por volta de 6.000 anos atrás (ou seja, 3 mil anos antes da “primeira dinastia”), tradições culturais começaram a chegar e se desenvolveram nesse Vale. Deram fundamento aos costumes funerários, filosóficos, princípios de ordenação social, que depois viria a se transformar no que se chamaria de “civilização egípcia”.
O Dr. Eugen Strouhal, antropólogo físico natural mostrou que “existem peculiaridades em evidências científicas de negróides entre os badarianos (egípcios pré-dinásticos).” (Journal of African History, 1971). Assim, é incompatível as teorias racialistas de que o elemento negro só teria surgido em Kemet nos períodos tardios. Esses exemplos arqueológicos indicam claramente e, de certa forma, muito óbvia a intensa relação entre a Núbia e o Egito desde a pré-história africana e a assimilação do componente negro na cultura faraônica posterior.


Assim, a Núbia, vizinha, parteira e propulsora de Kemet, ao Sul, como lugar de origem, da ancestralidade kemética, precedeu a antiga “civilização egípcia”. Esta reverência ao Sul, podemos ver o costume que prosseguiu por milênios depois, de enterrar seus mortos voltados para esse quadrante, ou seja, para o lugar de origem. Em geral, todas as atribuições dadas ao Sul, remete essa ancestralidade, como por exemplo, o uso das penas nas cabeças, como um cocar, representando o aspecto tribal e indígena dos povos mais ancestros, no simbolismo dos neteru ou de reis e rainhas; a posição fetal evoca também a ideia de renascimento, retorno à “mãe”; a orientação do corpo para o Sul é uma referência de que lá é “a terra dos primórdios”, da origem da vida e do ser humano; o Sul também indica “a terra dos espíritos”, ou “ta-akhu”, onde as almas (kau) dos ancestrais habitam.
>>> Nessa época, Ta-seti, se desenvolveu formando a origem e a fonte do que viria a ser milênios depois a própria cultura faraônica.
>>> Em 4.500 aec, temos Badari, outra cultura indígena, descoberta e reconhecida como sendo a mais próxima do que viria a ser a futura “civilização egípcia”. Os estudiosos sugerem que tenha sido, além das primeiras pré-culturas agrícolas do Alto Egito (Sul), ainda mantinha fortes evidências de elementos africanos provenientes mais ao sul do Sudão. Na verdade, a cerâmica badariana está intimamente ligada à olaria da antiga cultura neolítica sudanesa.
Martin Bernal, autor de Black Athena, questiona que, se existissem provas científicas de que os negros fossem biologicamente inferiores, como poderíamos então explicar que Kemet se localiza “inconvenientemente” no continente africano?
Para isso, haveria então três soluções:
-
a primeira seria negar que os antigos egípcios eram negros;
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outra era a negação que os antigos egípcios haviam criado uma civilização;
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e por último, a de negar ambas as hipóteses.
A última, foi a alternativa favorita da maioria dos historiadores dos séculos XIX e XX.
>>> Athena Negra: As Raízes Afro-asiáticas da Civilização Clássica, de Martin Bernal (1937-2013), professor de Estudos do Oriente Próximo na Cornell University, autor de três volumes publicados em 1987 onde, polemicamente na historiografia ocidental levanta a questão sobre a Grécia Antiga em uma nova perspectiva não-eurocêntrica. A sua tese discute a relação grega com os vizinhos africanos e asiáticos, especialmente os antigos egípcios e fenícios que, segundo ele, teriam colonizado o território grego. Bernal ainda, critica severamente que a partir do século XVIII, houve uma mudança mais radical na percepção ocidental de que a Grécia seria realmente o “berço da civilização ocidental”, a qual passou a negar, pela academia europeia,.qualquer tipo de influência africana significativa sobre a antiga civilização grega. Obviamente, sua obra e sua tese foram majoritariamente criticadas pelos historiadores, acusando-o de especulador, manipulador e farsante. Ele defende que as influências egípcias e fenícias já eram amplamente correlacionadas na Antiguidade, e além disso, enfatiza que vários elementos africanos em toda a cultura mediterrânea estavam presentes. (Athena negra: As raízes afro-étnicas da civilização clássica. Rutgers University Press. 1987)
Mas Bernal não está tão louco assim… hoje sabemos que o alfabeto grego “evoluiu”, ou melhor, originou-se do contato com a língua fenícia e semíticas (incluindo o egípcio antigo), bem como sua relação com o mercantilismo naval, expansionismo de colônias no Mediterrâneo, costumes religiosos, etc.
>>> Segundo o antropólogo Michael C. Howard, o alfabeto fenício deriva diretamente dos hieróglifos egípcios, bem como os demais paleo-hebraico (variante local do fenício), o alfabeto aramaico (ancestral do árabe moderno), e o alfabeto grego. (Transnacionalismo em sociedades antigas e medievais. Howard, Michael. 2012. p. 23)
Na historiografia grega, temos Heródoto de Halicarnasso (480-425 aec), in loco, no seu livro Histórias, obra que realiza descrevendo a geografia, cultura e política de Kemet, a qual em algumas passagens menciona que o povo egípcio era negro.
Outro escritor grego, Luciano de Samósata (125-190), em seu livro Navegações, cita o diálogo entre dois homens que falam sobre um negro que haviam visto, a qual usava o cabelo longo e trançado, pelo “estilo de cabelo comumente usado entre os egípcios”.
Aquiles Tácio de Alexandria escreveu: “Comparo os pastores do Delta com os etíopes e explico que eles são pretos, como mestiços”.
E ainda, o geógrafo Estrabão (64-24 aec) também afirmou que os etíopes eram “negros como os egípcios”.
[... continua]
Por Pablo Al Masrii
