
NETERU: OS PRINCÍPIOS DA NATUREZA

Deus não existe! Deus vive…
A antiga crença egípcia não possuia a ideia moderna de Deus, como um ser ou entidade separada. A filosofia mística egípcia manifestava seu sistema de acordo com princípios herméticos tidos como universais. Tal sistema assemelha-se pontualmente com outros sistemas filosóficos como o taoísmo, xamanismo, religiões ameríndias, antigo tantrismo e de matrizes africanas.
A origem de “deus”...

Para os antigos egípcios, a ideia de Deus relaciona-se intrinsicamente com o conceito de natureza, no sentido holístico.
A palavra egípcia “Neter” (N.T.R.) significava tão somente “Princípio” ou “Lei”, portanto a tradução de Neter para Deus não está correta, já que sua origem possui outro significado.
A palavra “deus” tem raiz histórica do latim que manteve seu termo na forma original da época romana que, por consequência deriva do grego “διϝος” (Dyēus, “divino”), que, na verdade, pertencia à principal divindade principal do panteão indo-europeu, e posteriormente grego chamado Zeus (Ζευς).
Ou seja, a palavra “deus” foi criada milênios após existir o conceito de Neter, ou princípio.
Neter e Neteret

Além disso, é digno de nota que a palavra Neter possui, como as demais tradições animistas e xamânicas de culto à natureza acima citadas, sua contrapartida feminina, indicando Neter para “princípio masculino” e Neteret como “princípio feminino”, revelando a dualidade no próprio universo.
Mas por quê foi traduzido como “deus” e não “princípio”?
O grande e último poder que transforma e cria todo o universo, a vida existente, a humanidade, os antigos egípcios deram o nome de “Princípio” (Neter, ou semelhante aos conceitos físicos modernos para explicar o universo). Ainda hoje o termo é usado na região pela população que fala o Copta (litúrgicos da Igreja Ortodoxa Copta, sendo estágio final da língua egípcia clássica).
A alteração do conceito de “princípio” para “divindade” apenas surgiu com os tradutores cristãos póstumos que escreviam o copta para a Bíblia. A primeira versão sugere “Ser Supremo” e possui, como acréscimo, a significância grega de “deus”.
Mais tarde, e de forma definitiva, o uso do conceito de “Princípio” tornou-se esquecido quando os historiadores clássicos e primeiros egiptólogos passaram a utilizar, na tradução dos textos antigos, a palavra “deus”. Quem eram estes egiptólogos? Egípcios?
Infelizmente não. Após uma leva de saqueadores, aventureiros e colecionadores de antiguidades que desde o Império Romano escaldavam-se nas areias do deserto, britânicos, franceses e alemães introduziram na Europa o que veio a se chamar posteriormente de egiptologia.
A maioria dos textos após serem redescobertos, graças à famosa Pedra de Rosetta, um sem número de egiptólogos estrangeiros passaram a traduzir tudo que vinha à frente. O problema do processo de tradução se torna altamente complexo quando o tradutor não possui a mesma qualidade interpretativa ou conhecimento prévio acerca do povo da escrita original, e foi isto o que aconteceu.
Todas as traduções posteriores, sugerem infindáveis “seres mágicos” que foram chamados de “deuses”, de acordo com os seus valores ocidentais, do século XIX. Sem contar que os primeiros egiptólogos desdenhavam a cultura egípcia antiga como supersticiosa, infantil e idólatra.
Se os Neteru (plural de Neter) não são deuses, o que eles são afinal?

A primeira resposta se encontra nas imagens hieroglíficas de seus textos onde poderíamos fazer um paralelo com o simbolismo da Cabala. O complexo sistema milenar do Antigo Egito sugere um conjunto de conhecimentos herméticos que eram reproduzidos nos templos ou nas “Casas da Vida” (Per Ankh). Toda a estrutura cultural, da escrita, medicina, arquitetura, literatura, música e de exploração mística denotavam uma relação intrínseca com o aspecto exotérico de sua realidade.
O conceito de universo e totalidade está presente nas fórmulas que integram o Céu (Pet), a Terra (Ta) e o Submundo ou Além (Duat), o Pet-Ta-Duat (Pet-ta-Dwat), cuja manifestação visível se faz pela presença dos Neteru (ou Neter). Sem os Neteru, não haveria como se manifestar estas substâncias da realidade (conhecida e não-conhecida).
Conhecer todos os princípios naturais (Neteru) fazia parte de praticamente, uma vida inteira dedicada ao estudo naquela época. Longe de serem apenas pedaços de granito, pinturas ou animais vivos, a impressionante carga simbólica atribuída a tais princípios demonstra de que forma os antigos egípcios lidavam com os aspectos mais abstratos da filosofia e da ciência.
O uso da simbologia para expressar seu vasto modelo empírico também caracteriza diferentes formas de ciência.
Desta forma, espalhados por toda a sociedade estes conceitos, os Neteru surgem nas artes, nas relações com os animais, nas estruturas sociais e em um todo holístico que os rodeava.
Nos próximos artigos teremos a chance conhecer cada Neter Egípcio em sua forma original.
Por Pablo Al Masrii
