
O que é Heka?
Magia Kemética (Egípcia)
Por Pablo Al Masrii
Para iniciar, seria de mau gosto nos dias de hoje, mesmo com os grandes saltos tecnológicos da ciência, rompimento de paradigmas, falar sobre “origem” da ciência e da filosofia, e demais ramos, sem fazer menção a todo este arcabouço de conhecimentos milenares adquiridos, às “escolas de sabedoria” da cultura do Vale do Nilo.
Praticamente, e hoje isso pode ser cada vez mais confirmado, grande parte do pensamento “construído” pelos gregos e romanos tem sua parcela de dívida com os conhecimentos dos antigos egípcios. É verdade!
Mas, por longos milênios, todo este cabedal de conhecimento (científico, sim) foi literalmente chamado de “mistérios”. Ironicamente, estes “mistérios” que tentamos desmistificar hoje, através do kemetismo e de muitos egiptólogos sérios, foram propositalmente eclipsados, vulgarizados, transformados em consumismo, em egiptomania, mas jamais apagados.
A egiptomania tem seus dois lados: sabemos que faz parte do nosso imaginário popular afirmar que o Egito, por exemplo, “fica no Oriente”; mas ao mesmo tempo, muitas pessoas que querem se aprofundar, são atraídas pelos holofotes deste consumismo, no bom sentido. A relação de Egito=Oriente, também faz parte de um cruel processo cultural, já que se pensa em Egito/Kemet como se parte continental da África fosse verticalmente cortada do mapa.

Estudando a cultura egípcia
Antes de falar sobre Heka e seu conceito próprio, hoje, pode-se dizer que conhecemos muito pouco sobre o muito que se diz do Antigo Egito. Múmias, pirâmides, maldições, deuses, vinganças romancistas, traições, faraós, superstições, tumbas e pragas. O efeito hollywoodiano de sensacionalizar o fantástico, têm atrás das cortinas, ou melhor, dos véus de Ísis, suas falhas, traduções distorcidas, conceitos inexistentes, teorias inventadas e vistas unilateralmente.
Todo o conhecimento acadêmico da história de Kemet ainda é muito recente. Trata-se de pouco mais de 2 séculos. Anterior a isso, somente sabemos de pequenos relatos da história através de antigos historiadores e viajantes gregos, romanos, árabes, ingleses e franceses. Suas narrativas de viagem são relatos que contém informações interessantes sobre o modo de vida, mas carregadas de imaginações e importâncias irrelevantes, aventurescas, comuns à época.
O primeiro grande avanço se deu nos finais do século XIX e toda a metade do século XX, com o descobrimento e revelação da famosa inscrição na Pedra de Rosetta, em Alexandria, por Jean-François Champollion. O mundo que parecia estar velado para sempre, abriu-se de repente como um novo planeta descoberto. Tratava-se da tradução dos hieróglifos (Medu-Neteru, a escrita sagrada egípcia) para o francês e posteriormente, para o mundo. Iniciava-se a Egiptologia Clássica.
Por que foi importante esse novo advento na história? Decifrar a nova escrita compunha na necessidade de traduzir diretamente do original a sua própria versão da história. Kemet é um lugar ainda vivo na memória do nosso inconsciente coletivo e perdurará por muitos séculos. Os antigos egípcios possuíam costumes e pensamentos, formas de entender e ver o mundo, de forma muito diferente e, portanto, de difícil compreensão se não estivermos dispostos a confrontar os nossos próprios valores de forma menos “naturalizada”.
A cultura egípcia é fruto de um processo acumulativo que se estende por tempos imemoriais, que se perdem nas brumas dos períodos pré-dinásticos, proto-dinásticos, até o Paleolítico Tardio e o Neolítico. A cultura, percebemos já, não surge de um nada, como alguns autores contemporâneos ainda insistem em apontar.

Para os antigos egípcios, termos como “cultura”, “religião”, “sociedade”, “filosofia”, “humanidade”, “magia” (nosso caso), entre outros, não existiam em seus léxicos. Não existiam não pelo fato de estarem atrasados em seu “processo evolutivo” de cognição do pensamento abstrato em forma de “conceito” (conjunto de ideias e valores), muito pelo contrário, seu simbolismo conceitual denota instrumentos de medição da subjetividade filosoficamente raros e únicos.

Assim, como fala Christian Jacq, um egiptólogo que não entende ou “acredita” no culto kemético, e que não partilhe de uma simpatia total com a civilização que estuda, não poderia, pronunciar mais do que palavras, e não conceitos. Na verdade, a grande literatura egípcia disponível contém milhares de páginas, que começam a brotar todo ano. Para isso, no kemetismo contamos com:
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vestígios arqueológicos
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textos sagrados
testemunhas in loco que descreveram partes importantes dos conceitos e dos ritos (gregos, em geral, que não podem ser refutados)


Praticando Heka
A vida material, mesmo nos seus aspectos mais concretos e do cotidiano, está impregnada de forças, sejam da natureza interna ou externa, que os anciões chamavam de heka. Este conceito, sem tradução literal, poderia significar o “domínio ou conhecimento das coisas ocultas”.
Heka começa com o início: a energia criadora gerada mesmo antes da Criação do Cosmos. No pensamento cosmológico kemético, animista, tudo o que existe, vive e se move em ordem permanente, não há lugar no Universo para coisas inanimadas. Se a nossa percepção não consegue se abrir para esta realidade mais ampla, é porque o véu se põe sobre os aspectos da vida, em seus múltiplos planos. Assim, as energias universais criadoras, as forças colocadas em movimento, para o ser humano comum (não iniciado nos Mistérios), podem lhe parecer hostis porque seu conhecimento é superficial. Ao se confrontar com aquilo que não conhece (ignorância), surgem o medo, a fantasia, o desconhecido, e nesse sentido, os sacerdotes de Kemet têm a ensinar sobre o que é a gnose (conhecimento das coisas ocultas).
O que mantém a vida? A vida não é um fim, mas um sintoma de algo que está fora do alcance da razão humana, porque ela habita a essência de seu ser. O sacerdote, o mago, sabe a causa última dos mecanismos da natureza, entende os processos de vida e morte das coisas do mundo. Sabe desvendar esses processos e usá-los a seu favor, como alguém que tece um tapete mágico.
Heka é algo da energia criadora que circula de baixo pra cima e vice-versa, dentro e fora. Nada está vivo e morto, tudo faz parte de um processo de níveis sutis e densos de energia vital. A faculdade humana é a arte da transmutação. Logo, verbalizar, pensar, criar, cuspir, fazer, são formas de materializar e jogar com essas energias. Cada energia contém em si seu próprio “sigilo”, o nome secreto da sua natureza. Quem pratica Heka, saber ler as entrelinhas, hieróglifos, simbologias e conceitos. O conhecimento dos nomes de poder são carregados de pura energia.
Heka é a completude de todo “sistema mágico”, no sentido ocidental, telúrico e teúrgico ao mesmo tempo, já que o que está acima é o que está abaixo. Não se pode reduzir Heka a uma mera “feitiçaria”, nem apenas à “alta magia de luz”, pois ela está e se encontra na ciência sagrada de estudos aprofundados das forças mais secretas do Cosmos, e até política de Estado. Por isso, em Heka não existe essa conotação de “magia negra” e “magia ”branca”, mas pode bem representar as inúmeras propriedades naturais identificadas como planetárias (astrológica e oracular), territoriais (neteru) e medicinais, por exemplo.
No universo animado, a função sacerdotal que estabelece os procedimentos ritualísticos (mágico-religioso-cerimonial) também rege o cumprimento das regras da ética de Maat, na função de reconectar Neteru e ser humano, afastar o caos interno e externo, harmonizando a ordem natural das coisas.

O sacerdote usa Heka no culto seguindo rigorosamente preceitos, fundamentos e princípios ancestrais daqueles que vieram e tiveram contato com o sagrado. Por este motivo, ele viaja entre as esferas, dos Céus em Pet, da Terra em Ta e do Umbral em Duat.
“Tal é o destino do sacerdote, se tornar uma estrela de luz nos Céus para iluminar o caminho dos outros”. Papiro de Leiden
O uso de Heka como “arma” individual, era raramente utilizado, mas visto como um grave crime, passível de pena de morte, por ferir a ética de Maat. O sacerdote se conecta com os Neteru, promove Maat, estabelece a ordem e luta contra o caos, seja qual for a sua identidade egregária. Ele faz uso do verbo, das palavras de poder (Hekau) e escreve. Por vezes, não se contenta em apenas ler, ele mesmo mastiga suas palavras, engole textos em papiro e ingere as palavras mágicas para dentro de seu templo interior. Para um egípcio, o alfabeto e língua grega era desprovida de poder e significado, porque acreditava que o seu preservava o poder vivo de Neteru na Terra, como fórmulas prontas.
Assim, Heka, não necessita de uma imensa parafernália instrumental e cerimonial, mas a pureza de espírito em Maat, a retidão de caráter, a pureza de corpo e coração, a sábia pronúncia das palavras de poder e simples gestos de respeito. O resto são utensílios e acessórios. O ato mágico pode encantar o vento, a vela, as sombras noturnas, os fluidos, as aves e os guardiões dos portais.
Heka é uma cosmovisão do mundo que é atemporal. Um kemético é, portanto, aquele que segue o kemetismo. Hoje, existem muitas comunidades keméticas espalhadas pelo mundo, cada qual com uma abordagem diferente de suas perspectivas, que podem variar entre mais ecléticas ou menos ecléticas.
O antigo sistema consistia em um vasto e variado conjunto de crenças e práticas, ligadas por seu foco comum na interação entre o mundo dos humanos e o mundo do divino. Para isso, o kemetismo atual evoca 5 princípios fundamentais: Holismo, Maat, Akhu (ancestralidade), Neteru e Wenwet (comunidade ou clã). Hoje, o kemetismo pode ser entendido como um sistema tradicional que incorpora diversos aspectos e elementos do totemismo, animismo e cosmovisão do antigo Egito, porém sem ser definida por eles.
Nos trabalhos internos, para a real eficácia de Heka, especificamente no tratamento ritual, o iniciado produz com efeito, um grande alcance de sua prática diária, em exercícios de contemplação/meditação, purificação dos corpos, estudo teórico da ética de Maat junto aos “arquétipos divinos” ou Neteru. Tudo isso é processado através da experiência e do acúmulo, de sua capacidade e habilidade de transformar a sua realidade em volta ou em comunicar-se com elas (múltiplas realidades).
Por isso, o sistema mágico kemético é amplo, ao mesmo tempo, religioso (envolve sacerdócio) e místico (individual), dentro de uma ordem que atravessa os aspectos superiores teúrgicos com os inferiores (telúricos). O mago-sacerdote, devidamente preparado, deve manifestar sua sabedoria nas matérias, densas e sutis, a fim de proporcionar o contato familiar com as energias na hora do trabalho prático.
Quanto mais ele se aprofunda nos mistérios de Neteru, mais a sua relação é interpessoal e se sincretiza nele mesmo. No instante em que ele se banha com ervas e natrão, amanhece com hinos a seu/sua neter/neteret, registra seus sonhos, e compreende o significado esotérico no tremular da chama e na fumaça do incenso, ele passa a agir.
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Bibliografia recomendada:
A Handbook of Egyptian Religion by Adolf Erman. London Archibald Constable & Co. Ltd.
Magic in Ancient Eypt. Geraldine Pinch. British Museum Press. 1994
Christian Jacq. O Mundo Mágico do Antigo Egito.
Magic and Magicians in the Greco-Roman World. Matthew W.Dickie
O Livro dos Mortos. Wallis Budge
Magia Egípcia. Wallis Budge
O Temple no Homem. Schwaller de Lubicz
