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O Brilhante Festival de Luzes de Neith

“Nos momentos em que se reúnem na cidade de Sais para suas oferendas, em uma certa noite todos acendem muitas lamparinas em um grande número ao ar livre e ao redor das casas; lamparinas em pires com sal e óleo misturados, com o pavio flutuando na superfície, queimando durante toda a noite; esta festa recebe o nome de Lychnocaia. Além disso, os egípcios acendem todos eles suas lamparinas, não apenas em Sais, mas em todo o Egito”

Heródoto, Histórias, Livro II, Capítulo 62

Uma grande festa era realizada para a (Neteret) divindade feminina Net/Neith em Sais no Baixo Egito. Milhares de lamparinas eram acesas dentro de seu Templo. O povo egípcio iluminavam ruas, jardins e casas em todo o país. Quando Heródoto visitou Kemet no século V AEC, chamou a cerimônia do “Iluminação das Lamparinas”, que ficou popularmente conhecida como “A Festa das Luzes”. 

 

Na verdade, a cerimônia sagrada da Iluminação das Lamparinas era realizada particularmente quando estava associada a outras festividades, que incluíam o Wag e o Ano Novo, Wepet Renpet. Posteriormente, com a chegada de muitos imigrantes gregos em Kemet, a identificação de Net/Neith com a helênica Athena teria encorajado ambos povos a a participar da comunhão desta festividade sagrada. 

 

Assim, a cerimônia teve a complexidade de conectar certos comportamentos sociais e culturais com grupos étnicos diferentes. 

Quem é Neith?

Net e a versão grega de Neith, é a divindade egípcia mais antiga (muito provavelmente pré-egípcia), a quem se considera nas tradições iniciáticas como a primeira e a principal criadora do mundo e do universo, a Grande Mãe. Neith como criadora do universo e tudo o que nele contém, governa o início e o fim de tudo, por isso seus símbolos são da eterna sabedoria, a tecelagem das redes cósmicas, de todas as mães, dos partos, dos alimentos caçados, e do destino. 

 

Posteriormente, Neith se tornou como divindade tutelar de Sais, onde seu culto estava centrado no Delta do Nilo, no Baixo Egito, desde a Primeira Dinastia. Em Sais, Neith tem como seus instrumentos de poder as Duas Flechas, cruzadas sobre um escudo. Seu sacerdócio envolvia uma complexidade extrema por se tratar de elementos atávicos, primordiais e filosoficamente abstratos de sua natureza.

 

Por isso, poucos são os textos antigos que identificarão claramente sua verdadeira natureza. Um silêncio místico foi colocado pelas antigas sacerdotisas por sigilo iniciático, empregando simbolismos sagrados restritos. Na sua forma habitual de divindade guerreira (o componente feroz e independente do feminino), ela abençoava as armas dos guerreiros em batalha e guardava seus corpos quando morriam, antes do Julgamento de Maat.

Entre os epítetos cósmicos, como a "Grande Vaca dos Céus", como Nut, ou como “Grande Dilúvio”, Mehet-Weret, em todas as formas, ela está associada à criação do tempo primordial e personificação das águas. 

 

Por outras vezes, Neith é retratada como amamentando um bebê crocodilo, por isso foi abordada com o título "Enfermeira dos Crocodilos", a “Mãe de Sobek” (nos Textos da Pirâmide).

 

Como Suprema "Abridora de Caminhos", seu poder se concentra nos caminhos das redes cósmicas, visíveis e invisíveis. Nas Dinastias IV, V e VI, são reconhecidos os títulos de suas sacerdotisas como “Sacerdotisa de Neith, Aquela que abre todos os caminhos", "Sacerdotisa de Neith, que abre os bons caminhos", "Sacerdotisa de Neith, que abre o caminho em todos os seus lugares". 

 

A principal imagem de Neith é a do céu invisível e ilimitado, em oposição a Nut, que representa os céus visíveis, noturnos e diurnos manifestados. Assim, a Antiga representa todo o círculo eclíptico ao redor dos céus e é vista nos textos como o determinante invertido da elipse celeste acima, e Nut abaixo.
 

Sincretismo 

 

Quando os gregos chegaram e conheceram seu culto ancestral, sincretizaram com o de Athena com a representação semelhante. Isso é mencionado ainda no diálogo socrático de Timeu, escrito por Platão:

 

“No delta egípcio, na extremidade onde o Nilo se divide, há um certo distrito chamado de Sais, e seus cidadãos têm uma divindade que é chamada na língua egípcia de Net, e afirma-se que os helenos também a chamam de Athena” Platão, Timeu, 21e. Platão também descreve uma festa de Athena na Líbia, provavelmente outro festival de Neith. 

 

No contexto cultural, a consciência grega sobre os festivais egípcios são registradas desde Heródoto, que mencionava essa Festa das Lamparinas em Sais. Na verdade, o historiador grego se mantém reticente, porque nem ele tinha muita informação sobre o ritual: “a finalildade dessa noite solene tem uma razão mística que devemos manter em segredo”. 

 

A lamparina significa a Primeira Luz do fôlego de Neith que brilha na Escuridão. Ela vem como Wadjet, a serpente dos ritos mortuários, os mistérios do sangue, dos venenos e da cura, da vida e da morte.

 

A iluminação por tochas tinha uma longa tradição na tradição grega, sob nomes como lampadeia e phosphoreia. As tochas estavam particularmente associadas aos mistérios eleusinianos e ao culto a Deméter, cujas funções foram identificadas com Ísis, através dos tempos.

 

As tochas e lamparinas dos dias epagomenais egípcios, do Ano Novo, eram colocadas para honrar seus ancestrais em seus túmulos. As lamparinas eram particularmente associadas ao culto familiar que se espalharam por todo o Oriente Médio e Europa, sendo parte integrante dos cultos imperiais romanos. 
 

O Antigo Rito das Luzes

 

A realização dos rituais dentro do espaço doméstico sempre foi uma característica importante da vida social dos egípcios. Geralmente, o espaço em frente à casa era o local das atividades domésticas e das práticas religiosas. 

 

Assim, na Festa das Luzes para Neith, a noite das oferendas, os egípcios mantinham lamparinas acesas ao ar livre, fora e dentro das casas. 

Segundo Heródoto, se tratava da representação da celebração noturna que deveria ser realizada em seus espaços domésticos, ligando o povo e o cosmos, na forma de um rito religioso e místico - uma profunda conexão e integração entre o universo animado (social, cultural, político, espiritual). 

 

O egiptólogo Alan Gardiner interpretou em textos antigos, sinais que representam pratos em oferendas de incenso puro, alimentos e bebidas, além das lamparinas acesas para Neith. Uma vinheta em fragmento, mostra um sacerdote apresentando oferendas, incluindo um grande vaso com bálsamo e duas lamparinas, onde são lidas:

 

... tekau pen nefer-en user it neter nefer-hotep em mandjet-em mesketeten seki-ef nen hetem-fen djet nu sa-ef wab amen-em-inet maakheru...

 

“esta bela lamparina para User/Osíris, o divino pai Neferhotep, durante o dia e durante a noite. Não deve ser destruído. Isso nunca deve perecer. Diz o seu filho, o sacerdote wen Ameneminet, justificado”. 

 

Assim, era necessário fornecer luz para o ente querido falecido na sua jornada pelo Duat, o Submundo, e por isso uma lamparina de Osíris encaminhada a Neith era colocada durante o dia e a noite. Esta era uma performance de fornecimento de alento, de vida e de  luz aos falecidos a todos os vivos na eterna jornada da vida.

 

Nas casas e nas necrópoles, mostram-se as queima de velas, onde os textos rituais são escritos como o "ritos de acender uma luz" (“iret teká”). Esse rito deve ser acompanhado pela ablução e libação de oferendas diversas. Muitas pessoas levavam pequenos vasos contendo azeite virgem, sal (natrão) e um pavio apenas, e em barcos eram colocadas as lamparinas.

 

Os papiros mágicos gregos preservam muitas receitas gravadas nas lamparinas, os Hekau, as palavras de poder, usadas para realizar as sessões mântricas. Os Neteru eram invocados pelos fiéis e sacerdotisas na frente das lamparinas acesas, tal como uma reza a Bes: “este hekau deve ser pronunciado na frente da lamparina”. A força mágica permite que se manifeste pelo objeto sacralizado e ofertado, e concluído em oráculo de sonho ou outro fenômeno.

 

wedja er per em hotep djed medu em hem-neter hy-e y em nedjem net ihet weret y et em hotep hy en y et-es net weret nebet ta-seny menhet-nebtu nebet ta-khenet neterten hena psdjut-es hotep hor set set tekau asha menu per khenu heru nefer em bahu hemut ti hy niut ten er-djer ser awy iret-en es-neb er hedj-ta dy ta-senety em heb

 

“Indo ao templo em paz. Recitação pelo sacerdote: Oh! Aqui veio a alegria. Neith, a Grande Vaca veio em paz! Oh! Para sua chegada, se alimente Neith, a Senhora de Esna, Menheyt-Nebtu, a Senhora de Khenet. A neteret e seu enredo aparecem para nós; acenda as tochas em grande quantidade dentro do templo para homens e mulheres que fazem sua festa! Que a cidade inteira dê gritos de alegria e ninguém durma até o amanhecer! Esna está em festa!” 

 

Sais não tinha o monopólio da cerimônia da Iluminação das Lamparinas, ocorriam em toda a região de Kemet e sobreviveu até o período ptolomaico.
 

Um Ritual moderno para a Grande Festa de Neith

 

Acessórios:

 

  • natrão

  • água pura

  • ramo de ervas (mirra ou alecrim)

  • velas (cores claras) ou lamparinas

  • incenso puro

  • alimentos e bebidas

 

Prepare o ambiente todo iluminado (e decore com as bandeiras de sua comunidade kemética, se tiver).

 

Este ritual é baseado no Rito Greco-Egípcio.

 

Limpando o espaço sagrado

 

Carregando natrão e água, o oficiante caminha pela área da casa ou do espaço ritual, borrifando tudo com uma pluma ou com algum ramo de erva (mirra, alecrim). 

 

Recita ao fazer seu encerramento do circuito:

 

“É limpo e purificado pelas águas vivificantes do Nilo celestial e do Nilo terreno! Aqui está puro! Eu estou puro, Ó Neith, ninguém existiu antes de Ti, pois Tu és o maior mistério do universo, antes do monte primordial que se ergue das amplas profundezas do oceano pela primeira vez. Tu és pura!”

 

De frente para o santuário ou altar com as lamparinas, diga:

 

"Para os doadores da vida, vida (Ankh)!"

 

Acendendo o incenso:

 

“Que este aroma sagrado agrade Neteru, à tua aparência, o mundo está cheio da tua fragrância; preenchendo todo o ar que existe no universo, intoxicando a todos com alegria e saudade de Ti.”

 

Tomando o Ankh (pode ser um recorte de papel cartão, madeira, ou metal):

 

No alto por um momento, e depois em um beijo reverente. Vire para a direção do Norte e o devolva ao próprio santuário, em completo silêncio, atento ao mistério da Vida e da Morte.

Acendendo a lamparina

Acenda a vela ou lamparina e coloque diante de uma imagem que represente uma figura materna ou dos ancestrais:

 

“O caos é destruído. Os portões se abrem e sua presença enche a terra com sua luz e calor. Neith, permita que este farol de luz nos guie até nossa verdadeira casa”

 

Levante as mãos na forma de Ka (postura receptiva com os braços em ângulo reto com as palmas voltadas para dentro) e recite as palavras com um poderoso efeito:

 

“Ó Neith, o som do seu nome sagrado preenche todo o espaço e penetra em todos os corações que te ouvem; Teu poder existe em todas as eras, até os Neteru te saúdam todos os dias. Tu, Aquela cuja alma é poderosa em Sais, te adoro. A mais velha, a primeira na criação, Senhora inascida na água primordial, Rainha da Coroa Vermelha, Toda Divina, Nos proteja sempre, tece a realidade à existência”

 

Após uma pausa em contemplação ou depois de alguma manifestação espiritual, se incline oferecendo as libações, flores, alimentos e bebidas.

 

O oficiante derrama a libação de água limpa com natrão e diz:

 

"Ao dar conforto aos antepassados, ó Neith, que essa água pura seja um bálsamo em teu mundo"

 

Compartilhe os alimentos e bebidas com todos presentes.

 

              Comunidade Ka-em-Neter, Florianópolis
 

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