
Antropocentrismo x Kemetismo: visões diferentes
Veja como nossa visão de mundo é confrontada com antigas tradições de culto à natureza e como podemos resgatar essa essência perdida.

Estamos vivendo uma crise de saúde ou da civilização?
Entre outras teorias que sempre costumam aparecer em tempos de crises, nunca a questão ambiental esteve tão em foco como nas últimas semanas em todo o mundo. Mas antes de entrarmos na discussão sobre a questão da crise do modelo industrial, que leva sua parte na crise ecológica, vamos fazer um recapitulado. Vamos lá para a nossa chamada "pré-história", lugar onde reside nos primeiros assentamentos e cidades que já começavam a ser organizar como as primeiras cidades-estados, entre 12.000 a 5.000 anos atrás.
Se formos falar das questões sobre doenças infecciosas e culturas, vamos rastrear isso desde o início da própria humanidade. Mas a ideia aqui é apresentar um esquema diferente de valores. Mesmo com a fixação da agricultura em povos muito antigos, o seu ecossistema era vulnerável à proliferação e infestação de várias espécies de pragas. Foram fatores que ajudaram para o colapso de muitas culturas antigas. Logo, isso não é nada novo na nossa história. No entanto, a forma como isso era visto e prevenido era bem diferente. Vamos prosseguir.

Mas é claro que há uma diferenças daquela época para cá, no entanto, também há muitas semelhanças nas condições que deram origem a doenças, há milhares de anos e o que ocorre hoje no século XXI, e nisto incluímos a atual pandemia do novo coronavírus.
O que é diferente, neste caso, é a forma da escala e da velocidade que este vírus afetou a população de forma mundial. Isto se deve em grande parte pelo próprio modelo civilizatório industrial e conectado, interligado, globalizado transportado (no caso, via aéreo, marítimo e rodoviário). Por isso, qualquer doença infecciosa tem o poder de se espalhar por todo o mundo como um verdadeiro incêndio daqui para a frente.
Mas como entender a questão desse colapso nas crises econômicas e industriais (de nossa civilização) em relação ao antropocentrismo? Primeiramente, vamos definir o que é antropocentrismo. O pensamento antropocêntrico não é uma característica humana inata. Para Aristóteles, a cidade (polis) é uma criação em que "o ser humano é, por natureza, um animal político" (zoon politikon). Estudos de crianças que se criaram com animais demonstrou claramente que as relações naturais ocorrem coletividade, mas não necessariamente humanas, com qualquer ser vivo, o que nos leva a considerar o entendimento do animismo, do totemismo, da perspectiva holística. Resumindo, é saber que nós seres humanos não somos tão importantes e relevantes quanto parecemos, ou que a nossa cultura de dominação da natureza nos leva a crer.
Para superar crises, os antigos povos refletiam sobre suas causas. Eles achavam que grande parte das desarmonias ecológicas se deviam a processos "ocultos" da Natureza, esta como um ser Vivo e Inteligente. Desta forma, eles acreditavam que deveriam transcender aquele estágio de caos, uma dificílima, sem dúvida. Os nossos defensores do industrialismo predador permanecem reféns do antropocentrismo, que hoje é base de quase todas as civilizações.
A dominação e o controle da natureza são fundamentais para a extração sem fim da riqueza dela. Uma sociedade que degrada e extrai tudo da natureza e ao mesmo tempo fala em em sustentabilidade, parece não ter muita ética embutida em suas teorias.
O que o Kemetismo tem a ver com isso?
A filosofia kemética argumenta que sempre devemos observar as causas dos problemas existenciais, humanos e ambientais. No entanto, quando surge uma crise social, no sentido de seus valores, comportamentos e escolhas, é uma forma de dizer que é uma crise humana. Para o kemetismo, a liberdade humana e a condição de ser emancipado, exige um processo de limpeza profunda e de harmonização de sua natureza com a própria Natureza.
Todas as culturas hoje são baseadas em algum nível de antropocentrismo. Durante os milhares de anos antes do surgimento das primeiras agriculturas, a humanidade viveu e prosperou como caçadores-coletores, em espaços comunitários, baseadas na relação natureza-cultura. Mesmo na vida bem-sucedida desses antigos povos, muitas vezes, sofriam por danos ambientais, mas em geral, sabiam viver em relativa harmonia com a natureza. Não havia sistema de domínio ou controle sobre a natureza. Isso se tornou a pedra angular de toda civilização desde então. O seu auge, no capitalismo industrial dos últimos 250 anos.
O kemetismo, bem como todas os movimentos e tradições baseadas nesse entendimento cosmológico, holístico, perspectivista, animista da vida, é baseado na sabedoria e na arte de desfazer certas relações de poder, principalmente àquelas que foram criadas nos últimos 2.000 anos.
Por isso, a importância de refletir sobre as manifestações do antropocentrismo deve ser vista como um foco principal, porque este é um fator que ajudou a criar a base do desvínculo social, o patriarcado, e demais formas de caos. A visão kemética é focada em Maat, ou seja, a Harmonia Universal, Cósmica e também Social. A perspectiva da liberdade humana é perspectiva sempre por valores universais. Sem Maat, que não é apenas um ponto de vista espiritual, mas um amor genuíno à harmonia da natureza e pela vida, não se poderá ter uma humanidade integral.

Mesmo que seja uma história complexa, a separação entre o ser humano e a natureza, na nossa cultura ocidental, pode ser atribuída a alguns fatores históricos, que começam com a ascensão dos valores patriarcais há mais de 2000 anos. Antes deste ponto, os sistemas de crenças como as tradições animistas e totêmicas dominavam. Se considerava o "sagrado" encontrado em toda a natureza, e a humanidade como completamente enredada nela. Não há separação. Se há alguma desordem nessa imensa teia, é porque em algum lado o caos conseguiu romper e pode se refletir em toda a teia.
Hoje, as atuais polêmicas sobre as mudanças climáticas devem ser estudadas com cuidado e coerência, pois muitas delas assumiram palcos sensacionalistas. A história não é tão linear assim, não como nós ocidentais a interpretamos. Nós não somos e nunca fomos referência de nada, em absoluto. Assim, a visão kemética não é antropocêntrica. Também queremos dizer que animais e plantas, e outros objetos da natureza, todos compartilham de uma essência. Essa ideia animista é ricamente ainda encontrada nas sociedades indígenas ameríndias, asiáticas e africanas.
Além disso, essa ideia de dominação (e não integração) sobre o “outro” é o que vemos na redução da natureza ao ser humano (antropocentrismo), de um gênero ao outro (patriarcado), de uma espécie sobre a outra (especismo) e de sistemas culturais sobre outros (etnocentrismo). No kemetismo, os Neteru não são responsáveis ou responsabilizados por catástrofes ou por males que os humanos sofrem. Tais infortúnios, são geralmente vistos como manifestações de Isfet (a desordem cósmica natural), oposta à Maat.
Os Neteru não são julgados e nem culpados por problemas na vida humana, por duas simples razões: essa é uma visão antropocêntrica e em segundo lugar, todos os Neteru obedecem às Leis de Maat. Mesmo Set, que supostamente poderia ser responsabilizado pelas desordens no mundo, está submetido às Leis de Maat e ao poder de Ra.
A relação kemética com o mundo exterior é distinta da nossa concepção de “nosso” meio ambiente, como o chamamos. Esse termo, (“meio-ambiente”), criado na Conferência de Estocolmo de 1972, foi definido como tudo aquilo que envolve a natureza viva e “não-viva” que existe sobre a Terra. Mas se tomarmos o princípio que a palavra “meio ambiente” significa, é um pleonasmo. Em um sentido mais amplo, o “nosso” meio não pertence ou está sob os desígnios exclusivos do ser humano. O ser humano é parte integrante da natureza, isso já era afirmado em Kemet e praticamente, todas as demais culturas antigas.
Poderíamos falar de problemas ambientais há vários milênios, pois a preocupação com a natureza não é recente. As antigas culturas neolíticas, em geral, tinham uma relação diferente da atual, onde se caracterizavam pela cosmovisão holística entre ser humano/natureza e pelas tradições de culto matriarcais.
Foram registrados, pelo menos entre os antigos egípcios, códigos sociais éticos, contra o corte de árvores sem prévia autorização, ou poluição de canais de irrigação e abastecimento. Existiam mutirões de reflorestamentos, principalmente nas margens do Rio Nilo e tentativas de despoluição de canais. Se observarmos nas 42 Confissões Negativas, nas Leis de Maat, já podemos julgar pelo alerta:
“1 - Respeitar os seres, não fiz maldade para as pessoas, nem causei ferimentos em animais;
8 - Respeitar o alimento;
16 - Respeitar os campos e a terra;
35 - Conservar a água, não interromper o curso natural.” (“As 42 Confissões Negativas”)
Com a chegada da modernidade científica e da alta tecnologia, as sociedades industriais passaram a defender a ideia de que é possível levar à frente o controle total sobre a natureza - não mais concebendo-a como inerente a si mesmo, mas como algo, um ser externo, o objeto, não mais integrado, mas separado e dividido.
Porém, os atuais problemas ambientais não podem ser considerados como exclusivamente pertencentes à ação humana, pois o ser humano, apesar da sua capacidade de transformação, pode gerar desequilíbrios e um grande mal a si mesmo (e seu entorno natural), mas não à Vida, que está e sempre esteve, acima dele.
Na verdade, esta relação de ser humano/natureza é, antes de mais nada, uma relação dele consigo mesmo. Geb ou Gaia existe há incalculáveis “bilhões de anos” e por sua vontade incompreensível continuará a existir. O sistema de valores e crenças antropocêntricas faz o ser humano se afirmar como supremo perante à natureza e a todo o Universo. A natureza possui uma dinâmica própria, que envolve transformação constante e cíclica, mas será apenas o ser humano que em seu habitat, não necessariamente toda a biosfera, que causará danos que irá ameaçar somente a ele.
A biosfera é inteligente e dinâmica, não no sentido humano, e sem compreendê-la totalmente o ser humano permanecerá entre o mito e a verdade, isto é, submetido à ela. O ser humano não é alienígena para a Terra, ele é da Terra. E se alienígena o fosse, também seria uma criação natural do Universo vivo. Dito assim, a separação entre ser humano e natureza, ou “cultura e natureza”, como dizem os antropólogos, é uma construção insustentável.
Tudo e o Todo são sagrados, pois em cada pedra (“não-viva”), em cada planta e animal, ou moléculas de água e ar, constituem como elementos temporais e essenciais ao mesmo tempo.

A boa notícia é que a separação percebida da natureza não é universal entre os habitantes humanos do planeta. Inúmeros outros sistemas de crenças frequentemente retratam os não-humanos como parentes com valor igual a serem respeitados, em vez de objetos externos a serem dominados ou explorados.
Filosofias e tradições como o kemetismo, taoísmo, xamanismo, algumas modernas neopagãs e tantrismo enfatizam que não existe um "eu independente" e que todas as coisas dependem dos outros para sua existência. No entanto, transformar esses conhecimentos em prática não é tarefa fácil.
Levará muito tempo ainda, e educação para que uma nova era verdadeira se regenere.
Mas, cuidado, devemos ter cautela com alguns tipos de ideias:
Muitas correntes radicais ambientalistas e esotéricas estão afirmando que "nós somos o vírus", jogando a toalha sobre outras questões que são perigosas. Declarações de que "o planeta está melhor agora" e que "nós humanos" somos o perigo vem ocupando mídias. Essa postura tem problemas, como a desconsideração do impacto real sobre o planeta a nível macro. E além diso, certas facetas são perturbadoras porque defendem a redução de populações, mas sem entender (ou sim) que este discurso "anti-humano" tem conotações fascistas radicais. O problema da superpopulação é um problema social, cultural e político, mas não culpa de um povo, quem deveria ser responsável são aqueles que detém os poderes, na grande maioria, os ricos, que irão sofrer menos do que àquelas pessoas mais vulneráveis.
Assim, é provável que a natureza (os Neteru), esteja nos enviando uma mensagem de "basta", não apenas com a pandemia e atual crise climática, como disse recentemente o chefe do Meio Ambiente da ONU, mas pensemos em nosso papel, como entes não separados da vida natural. E se realmente pensamos que somos tão relevantes e devemos dominar a natureza, então podemos considerar positivamente que somos um "vírus".
Talvez, a crise do novo coronavírus, que apenas reflete uma crise maior, de humanidade, possa oferecer uma oportunidade de mudança. Vamos colocar a natureza em primeiro lugar? Um sistema industrial que coloca as pessoas e o planeta à frente dos lucros? Novas quarentena de consumo e valores? Está aberta a temporada para um novo começo.
Por Pablo Al Masrii
