
Kemetismo em tempos de pandemia

Antes de tudo, este texto foi elaborado com o intuito de servir como um gatilho para a reflexão, em vários aspectos que serão abordados ao longo de algumas ideias. No momento presente, quando o planeta inteiro, em escala global sofre pela segunda vez a impetuosidade de um vírus tão forte (como o da Gripe Espanhola), é importante apontar certas reflexões e análises para a história epidemiológica. Neste sentido, levantar os traços entre: a realidade à nossa volta (cosmovisão de mundo); a importância da medicina e de seu empoderamento; e do uso critico da medicina no contexto atual. Estes três pontos, são assim, a base para nos debruçarmos hipoteticamente nestes assuntos.
A história da medicina traz consigo partes da própria história humana, de seu enfrentamento bruto com o meio em que rodeia rodeia o ser humano, seja na relação com a natureza ou dele consigo mesmo. A história dos vírus descreve importantes passagens na história humana, desde a tempos imemoriais. Todas as epidemias foram se tornando cada vez mais perigosas à medida em que se começava a alterar o comportamento social já no neolítico, aproximadamente 12.000 anos atrás.
Foi no momento em que já existiam numerosas comunidades agrícolas, densamente povoadas, até a formação final de grandes centros urbanos e cidades. Tudo isso permitiu que novos vírus se alastrassem rapidamente e, posteriormente, se tornassem mais endêmicos. Temos registros de epidemias (localizadas) à medida em que as sociedades se tornavam mais aglomeradas e dependentes, fixas de espaços urbanos.

É sabido que a medicina era praticada desde os tempos do Homo de Cromagnon e do Neanderthal, pela aplicação do puro conhecimento empírico - a observação milenar dos processos naturais, entre tentativa e erro. No entanto, pouca gente sabe que a medicina atual (ocidental) faz parte do que herdamos desse acúmulo científico de conhecimento milenar. Os chamados Tratados Médicos, dos Papiros Médicos Egípcios, tal como posteriormente as demais antigas ciências médicas como a medicina tradicional chinesa (MTC) e a indiana (Ayurveda), eram as formas mais ancestrais da ciência médica no mundo.
As teorias e práticas médicas egípcias ajudaram a influenciar posteriormente (na verdade, quase 3 mil anos depois) os gregos, persas e romanos, e que ainda, forneceram muitos médicos egípcios a seus vizinhos. No Império Romano, e através dele, as teorias médicas egípcias (e depois, greco-egípcias) influenciaram a medicina árabe e europeia durante os séculos vindouros.
Na verdade, os antigos egípcios estavam muito avançados nos seus diagnósticos e tratamentos de várias doenças. Em relação a outros povos, os avanços das técnicas poderiam ser consideradas como bastante extraordinários, já que possuíam um estudo da anatomia humana, catalogação do mundo natural e uma ampla série de tratados de doenças com seus respectivos tratamentos.
>>> Vale assinalar que Heródoto havia descrito (em História II) aos egípcios como sendo "os mais saudáveis de todos os povos", explicando para seu leitor grego que eles possuíam um notável sistema de saúde pública, onde, segundo ele, a prática médica era tão especializada, que cada médico se encontrava no patamar de um especialista para doenças, males e enfermidades específicos.
E assim mesmo, Heródoto estava certo. A medicina egípcia desenvolveu um uso prático nas áreas da anatomia, da preocupação com a saúde pública e do próprio diagnóstico clínico. Por exemplo, para citar, as informações médicas que estão contidas no Papiro de Edwin Smith, datam de não mais do que 3.000 a.C.
Seu autor, o famoso Imhotep (da IIIª dinastia), a qual é creditado como fundador da medicina egípcia antiga, sistematizador do Papiro Edwin Smith, onde ele detalha curas, doenças e observações anatômicas. Entre os tratados datados há mais de 4 mil anos, podemos elencar:
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Papiro Edwin Smith (atribuído a Imhotep, cerca de 3.000 a.C)
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Papiro Hearst, de 2000 a.C
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Papiro Carlsberg, de 2000 a.C
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Papiro Kahun, de 1825 a.C
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Papiro Kahun Gynaecological, de 1800 a.C
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Papiro Ramesseum, de 1800 a.C
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Papiro de Londres, de 1630 a.C
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Papiro Erman, de 1600 a.C
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Papiro Ebers, de 1550 a.C
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Papiro Brugsch ou de Berlin, de 1350 a.C
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Papiro Leiden, de 1290 a.C
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Papiro Chester Beatty, de 1200 a.C
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Papiro Brooklyn, de 660 a.C
Mas como o sistema de assistência médica dos antigos egípcios era um serviço público? Não era um estado "tiranizado"?
Primeiramente, que a sociedade egípcia não pode ser vista ou comparada com as atuais formas sociais e políticas de nossa era. Tanto o conceito, a forma e o entendimento de organização social eram totalmente distintas das quais temos hoje, mesmo em se tratando de Idade Moderna e Média. Para não entrar nesta discussão sobre estado e sociedade, vamos explicar as características deste tipo de sistema médico que foi por muitos milênios sendo organizado no Vale do Rio Nilo, entre dois desertos:
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O sistema de saúde era popular, ou seja, gratuito: portanto, acessível a todos. Não havia serviço pago e nem moeda nos moldes modernos;
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Era um sistema geral: isto é, para todas as classes sociais, independente se pertencia à família real, o clã sacerdotal ou a classe de camponeses;
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Um sistema nacional: ou seja, disponível em e para todo o país, disponível a qualquer momento.
Assim, a formação médica era realizada quando estudantes ainda adolescentes eram recrutados depois de um período longo de exames e provas. Esta forma precoce de ensino também foi utilizada pelos médicos gregos. A diferença é que, depois de concluírem seus primeiros anos em avaliação médica, os jovens gregos completavam seus conhecimentos no Egito, como se fosse uma especialização - mas apenas para os melhores médicos gregos. De acordo com as fontes gregas, a complementação dos treinamentos podiam durar até dez anos.
No Egito, depois desses períodos de estudo e viagens, o médico formado poderia trabalhar em centros especiais de atendimento às pessoas, que eram chamados de Per-Ankh (Casa da Vida). Alguns eram autorizados a dar continuidade em atendimentos a domicilio ou em sua residência. Tudo isto, a organização do sistema médico egípcio, foi regulamentado desde a época de Imhotep, tal como se comprova em uma antiga inscrição nas paredes da Pirâmide de Saqqara.

Um autor teólogo grego, Clemente de Alexandria (no século II), disse que de 42 livros egípcios sobre conhecimento humano, 6 deles havia importantes conteúdos médicos. Nesses livros, estavam contidos procedimentos milenares sobre a estrutura do corpo humano, suas doenças, instrumentos médicos, tratamentos e remédios, etc.
O compromisso médico e a realidade social
Mesmo que Heródoto tenha escrito que o antigo egípcio era saudável, alegre e altamente higiênico, a questão é que, doenças, viroses, epidemias e problemas congênitos estavam sempre presentes. Nos restos mortais, em suas múmias, a história endêmica nos indica uma realidade difícil naquela época. Devido ao clima extremamente seco e árido, com amplitudes térmicas insalubres, muitos sofriam de condições artríticas, doenças oculares e dentárias (devido às tempestades de areia), infecções virais, tétano, varíola, poliomielite e tuberculose.

Os impressionantes descobrimentos da medicina egípcia
Imhotep parece ter prescrito formas de tratamento que hoje, os "especialistas" modernos consideram avanços médicos, sem ter conhecimento de que há 4 mil anos atrás, haviam procedimentos complexos! Estamos falando de aplicação de acupressão em áreas específicas do corpo humano, para tratar de dores de enxaqueca, por saberem que a medição do pulso representava a saúde do coração e de todo o estado geral clínico da pessoa.
A sabedoria sobre a existência da relação entre pulso, coração, vitalidade (estados energéticos) que o autor do Tratado Médico tinha, é de um enorme paradoxo para o pensamento científico atual. Para a medicina egípcia, a teoria de canais era explicitada pela analogia com o Nilo, numa rica alegoria de como se transporta "água” (energia vital) pelo corpo (Egito) através dos rios (canais do corpo). Se as semeaduras e colheitas perdem vitalidade, o mesmo se aplica ao corpo: a terra adoece tal como o corpo, sem energia.
Medicina integrativa e holística
E onde entram as relações com a "magia" e "religião" na medicina egípcia? Novamente devemos fazer o exercício de compreender conceitos e esferas do conhecimento que são totalmente distintas de nossas concepções modernas. Palavras como "magia", "religião", "deuses", como as entendemos hoje, não existiam no vocabulário egípcio. No entanto, as percepções sobre mundos paralelos ou multiversos, em uma visão perspectivista do mundo, eram naturalmente associadas a tudo o que era visto como real.
Isso significa que a compreensão deles sobre o fator "doença" estava ligado a uma desordem natural que podia ter relação, ou não, com outra desordem, em outro aspecto paralelo, que podia ser mental, ambiental ou até mesmo energético (que chamamos de "espiritual"). O sofrimento era chamado de wxdw "wekhedu" que seria o momento em que a ordem natural estava em desequilíbrio. Desquilíbrio e caos era visto como Isfet e a ordem como Maat. A função social de cada pessoa era respeitar, estimular e defender Maat, em todos os aspectos. E quando a pessoa adoecia, era porque em algum sentido, partes de seu equilíbrio vital estava fragmentado e frágil. Em outras palavras: a ordem natural das coisas é a vida (Ankh) e quando esta é ameaçada pelo seu contrário, sobrevém a perda de vitalidade e o sofrimento. Como na mente egípcia, tudo está interligado, natureza e cultura, a saúde é um estado de ser, de viver e de primazia sobre os demais aspectos da existência.
Essa é a natureza essencial que se distingue da nossa atual forma de ver o mundo, de agir e de pensar. Pensemos sobre isso, um momento. O caos pode-se mover, atravessar, transmitir e reproduzir a dor em todos os aspectos. A preocupação com a saúde não era uma questão apenas "médica", mas moral, social, espiritual. O corpo, sendo o lugar sagrado que a natureza desempenhou gerar uma função, não podia ser rejeitado. Por isso, a afirmativa de Heródoto sobre a felicidade e a vida salubre egípcia tinham contornos verdadeiros. E práticos: no livro chamado "Andanças de Wekhedu", contido nos Papiros Médicos, alertava para que os canais do corpo ficassem desobstruídos de todo mal.
A medicina moderna, principalmente a neurologia e oncologia, começaram a perceber e prestar atenção devida ao fator emocional e psicológico da pessoa. O que era na antiguidade, um dos modos mais importantes de tratamento, por isso, o nome medicina integrativa. Os vários elementos terapêuticos, como música, artes, práticas hipnóticas, jejuns e oníricas, eram seriamente aplicadas.

Tahuti (Thoth) na defesa da ciência
Tahuti é um elemento central no conhecimento e na aplicação deste na vida humana. Muito além de apenas ser considerada no Ocidente como uma simples "divindade", ele representa os aspectos e princípios universais do Logos, da ciência, o entendimento e a inteligência. E na medicina egípcia, pelo seu papel de consciência associada à aplicação sábia desse conhecimento, implicava no efeito real dos tratamentos.
Os tratamentos eram de vários tipos, que sempre recordavam a luta simbólica entre Maat e Isfet no campo da vida e da morte. A eficácia da limpeza moral, física e emocional passava no combate contra os "vermes" mórbidos que haviam entrado no corpo. Essa ideia de aspectos paralelos de nosso "plano físico" não é novidade, pois os encontraremos em pluralismos de sistemas como o hinduísmo, budismo, pitagorismo, xamanismo, taoísmo, sufismo e Cabala.
Desta forma, os problemas mais endêmicos como pestes eram diagnosticados (porque eram registrados em livros mais antigos) e tratados, na sua devida importância. As pestes eram formas em potenciais de desequilíbrios. Insetos, pragas, roedores e bactérias se não fossem "harmonizados", transmitiriam o caos e uma série ameaça ao equilíbrio ambiental. Esse desequilíbrio, desempenhava um papel determinante contra os princípios da sobrevivência, da mesma forma que a biologia hoje argumenta.
É claro que os egípcios não tinham conhecimento das bactérias, o que de certo modo, pela sua interpretação sempre holística (integrativa), não dispusessem de noção sobre esferas ínfimas maléficas, às vezes, reconhecidas como miasmas (gases venenosos, tóxicos, águas pútridas) - muito semelhante à teoria dos germes. Por exemplo, no tratamento de dores intensas, o Edwin Smith indica o medicamento com base de papoula (Papaver somniferum L.), de forte alcalóide que se produz a morfina. Outro remédio muito importante é o mel, altamente potente contra o crescimento bacteriano, antibiótico e viral, sendo usado de todas as suas formas possíveis. Hoje, o mel cientificamente prova ser eficaz na luta contra o staphylococcus e a salmonella, além de ser usado em feridas, queimaduras e úlceras.
A limpeza pessoal e a aparência eram consideradas quase religiosas. O uso do natrão (como era desconhecido o sabão) era tão popular que ultrapassou fronteiras regionais e temporais (o símbolo Na da tabela periódica deriva de Natrium). Usado para fins religiosos, médicos, alimentares e de limpeza, a mistura de sal com bicarbonato de sódio era considerado como sagrado, poderoso elemento contra as diversas impurezas.
Natrão, mirra e mel, nobres e camponeses eram lavados com freqüência, várias vezes ao dia, antes e depois de todas as refeições e afazeres. Pomadas, unguentos e óleos aromáticos eram usados de forma abundante. Perfumes e desodorantes naturais eram misturados com ervas e incensos. Para Heródoto, os hábitos de vida do egípcio eram tão ordenados que pareciam terem sido sistematizados pelas leis de saúde pública.
Assim, deixamos uma reflexão propícia para o atual momento crítico em que vivemos, em tempos de mórbidos de pandemia. Ptahotep disse: “Maat é grande e sua eficácia, duradoura; há punição para quem viola suas leis, mas esta é desconhecida daquele que deseja obter conhecimento. Quando o fim está próximo, Maat permanece.”
Em outras palavras, a ignorância é a essência do medo e do desconhecido, a falta de conhecimento. A maldade nada mais é do que senão desordem, a falta de Maat.
Por Pablo Al Masrii
É terapeuta e membro do Kemetismo Brasil, onde divulga a Terapia Egípcia nos tempos atuais como uma sistematização das práticas e conhecimentos técnicos da antiga tradição com os atuais. Este texto foi feito em homenagem a todos os profissionais da saúde no mundo.

