
O Equinócio Kemético

Desde os tempos antigos, as pessoas celebram a chegada da primavera ou do outono no equinócio - uma época em que o dia da Terra é dividido quase pela metade.
A cada seis meses, um equinócio divide o dia da Terra pela metade, dando-nos cerca de 12 horas de luz e 12 horas de noite. E neste ano, dia 20 de março de 2021, a natureza mais uma vez nos trará o equinócio, primavera no hemisfério norte e outono no hemisfério sul.
Marcando o Equinócio
As culturas antigas rastrearam os equinócios de maneiras diferentes ao longo dos milênios. De monumentos construídos, como pirâmides, obras em pedra que funcionavam como calendários, templos que incorporaram o sol em sua arquitetura, todas marcando a passagem do sol e as estações com grande precisão.
Porém, nenhum momento maior poderia ser encontrado para relembrar o passado da Terra e da humanidade, na tradição da ressurreição, do que o Equinócio. No meio do caminho entre os solstícios, são dois dias em que os hemisférios recebem a mesma quantidade de luz solar e, além disso, os dias e noites têm a mesma duração.
No dia 20 de março, em Kemet (Egito), encontramos o povo celebrando o Neter User/Wesir (Osíris) nesta época do ano, mas como estamos no hemisfério sul, estamos vivenciando o Equinócio de Outono, ligado a Net/Neith, como veremos.

A história de User, é contada de várias maneiras, mas a mensagem é sempre a mesma: morte e ressurreição, metáforas para a jornada do ba (alma) nos espaços da existência das múltiplas realidades. Para os antigos keméticos, existiam os multiversos.
Portanto, tanto o Equinócio de Primavera quanto de Outono também recebiam um profundo significado espiritual e esotérico (iniciático). É o momento em que as forças da luz e das sombras se encontram, significando o despertar e novos começos: um em Áries e outro em Libra.
Chegando em um momento em que os dias começam a ficar mais longos, como triunfo de Ra sobre Apep, e em contrapartida, as noites começarão a ficar mais longas, como a descida de Ra no Duat.
Assim, nós keméticos, celebramos com atenção o momento interno e o externo, alinhando nossa consciência à natureza circundante.
>>> Em Kemet, a Grande Esfinge olha diretamente para o Sol Nascente nos Equinócios e a Grande Pirâmide de Khufu não projeta sombra ao meio-dia no dia.
Moustafa Gadalla, observa que a Grande Pirâmide está perfeitamente alinhada ao longo dos pontos cardeais - norte, sul, leste e oeste.
As duas outras pirâmides maiores, a Pirâmide de Khafra e a Pirâmide Vermelha em Dahshur, também estão alinhadas com um alto grau de precisão. Porém, todas essas três pirâmides exibem uma peculiaridade incomum: elas são giradas ligeiramente no sentido anti-horário a partir dos pontos cardeais.
A verdade é que os antigos keméticos, de fato, usavam o Sol para alinhar as pirâmides, mas especificamente no dia do Equinócio de Outono (em setembro). A duração do dia e da noite são iguais neste equinócio. Se colocarmos uma vara (também conhecida como “gnomon”, como era usada naquele tempo) para rastrear o movimento do Sol, marcaria a localização da sombra ao longo do dia, formando uma curva. No final do dia, quando uma linha reta é traçada, ela aponta de leste para oeste, no sentido anti-horário - tal como o alinhamento das três pirâmides.

Na nossa data de Equinócio de Outono, é Net/Neith que deve ser reverenciada. Ela é uma antiga neteret/divindade kemética. No Ocidente, é mais conhecida pelo seu nome helenizado e copta demótica Neith. Etimologicamente, Net (nt), significa “tecer”, e é o nome dado à Coroa do Baixo Egito.
Simbolismo de Net/Neith
Ela é chamada de epítetos cósmicos como a "Vaca do Céu", tal como Nut. Ela é o Grande Dilúvio, Mehet-Weret, a Grande Vaca que dá à Luz a Ra (Sol) diariamente. Nessas formas, ela está associada à criação dos tempos primordiais e da "recriação" diária.
Assim, na antiguidade, foi considerada como a primeira e a principal criadora do Universo, de tudo o que ele contém. Ela é a divindade da Sabedoria, da Tecelagem da Vida, do Cosmos, das Mães que geram, das Águas, dos partos, das caças, da vitória (“guerra”) e dos destinos.

A Grande Mãe
No mundo patriarcal, ela precisou se ligar ao masculino através do matrimônio, por esse motivo, deram a Net/Neith um marido e filhos. Em textos do Reino Antigo, teve Set como marido. Também foi esposa de Khnum e mãe de Apep, a serpente do Duat.
Existe uma atribuição de que sua forma também é representada como protetora da vitória (da guerra), pois era dito que ela confeccionava as armas dos guerreiros e guardava seus corpos quando morriam. Por essa relação com a guerra, ela foi associada com a morte, nas flechas nos inimigos. A influência de Net/Neith como divindade-serpente do Delta teve poder sobre as regiões da Líbia.
Neith: aquela que abre todos os caminhos
Ela também é mostrada como a protetora de um dos Quatro Filhos de Heru, especificamente de Duamutef, no jarro canópico que armazena o estômago, a parte mais vulnerável do corpo e alvo na batalha. Desde os períodos pré-dinásticos ela era chamada de "Abridora de Caminhos" (wep wawet), escoltando os ka, almas.
Ela é vista no céu invisível e ilimitado, em oposição a Nut e Het-Heru (Hathor), que representam os céus noturnos e diurnos manifestados, visíveis. É nesse momento que Net/Neith reina, onde Ra nasce e se põe diariamente. São nesses pontos, além do céu visível, que seu verdadeiro poder se manifesta.
Assim, ela é a personificação das águas primordiais da criação. Ela é a Grande Mãe neste papel. O fato de ser cultuada nos primeiros períodos é demonstrado pela preponderância de nomes que incorporam o seu - a predominância do seu nome em quase 40% dos primeiros dinásticos, e em quatro mulheres da realeza da Primeira Dinastia. Entre eles: Net-hotep, primeira rainha egípcia; Merneith, rainha regente e Neith (esposa de Pepi II).

A Senhora de Sais
Foi teorizado por muito tempo que o seu principal centro de culto se estabelecia em Saïs, mas evidências iconográficas indicam também que ela era cultuada tanto no Alto Egito quanto no Baixo Egito, ou seja, uma divindade nacional do Antigo Reino
Alguns escritores afirmam que, como Net/Neith é capaz de dar à luz sem a polaridade masculina, interpretam isso como sendo autogeradora, andrógina. Isso pode ser verificado como que Erik Hornung interpretou no Livro Am Duat, cujo nome de Net/Neith aparece escrito com um falo, em referência às características masculinas e femininas.
É muito provável que Net/Neith atingiu profundamente os períodos pré-históricos, incluindo o Neolítico. Ela era considerada como a mais velha das divindades.
Proclo (412-485 EC) escreveu que no Templo de Net/Neith em Sais (do qual nada resta agora) trazia a seguinte inscrição:
“Eu sou as coisas que são, que serão e que foram. Ninguém jamais abriu o véu pelo qual estou oculta. O fruto que eu trouxe foi o Sol (...) “Sou única, misteriosa e grande, que vim a existir no começo e fiz com que tudo acontecesse.... sou a Mãe Divina de Ra, que brilha no horizonte”
Culto, Festividades e Celebrações de Net/Neith
No início do Antigo Reino, saindo das pré-dinastias, as sacerdotisas de Het-Heru (Hathor) serviam também a Net/Neith. Um grande festival chamado de Festa das Lâmpadas ou das Luzes, acontecia anualmente em sua homenagem e, segundo Heródoto, seus devotos acendiam milhares de luzes ao anoitecer toda durante a celebração.
No Equinócio de Outono, os keméticos se reúnem para celebrar o equilíbrio das forças da natureza. Porém, como sabemos, é o momento que se aproxima o outono e o inverno, ou seja, o envelhecimento, a sabedoria, a regeneração após qualquer perda, a recuperação do equilíbrio, etc.
Em tempos difíceis como agora, em que a humanidade passa devido à crise pandêmica global, é o momento em que as pessoas podem se voltar à Ela para resgatar seus elos, refazer suas teias, contar sua jornada até aqui.
Também neste período, próximo ao Equinócio de Outono, que comemora-se o Festival de Natividade dos Bastões de Ra.
Se relaciona com Ra, que como o Sol, envelhece e se torna mais fraco com o passar do tempo, até ter de "apoiar-se em uma bengala". Durante esse período, Net/Neith o visita.
Isto se relaciona com o estado da velhice (Ela, sendo Anciã), e aparece sempre em auxílio aos Neteru e aos que estão no Duat (Plano Astral). Esse festival representa a figura masculina solar (comum em povos pré-históricos), que se aproxima do Sagrado Feminino.
Como parte do ciclo dos dias festivos do calendário solar, o Festival de Net/Neith no Equinócio, complementa o de Solstício de Verão de Sekhmet, filha de Ra. De igual forma, Sekhmet salva Ra quando este começa a se enfraquecer. Assim, Net/Neith equilibra os extremos, estabiliza as estações adequadamente, a leste no horizonte.
Assim, são ligados também os dois Equinócios, por Ela, um marcado por Áries e por Libra. Em Sais, comemorava-se no mês de Hethara, no Outono, sob o signo de Libra (a Balança).
Neste dia, objetos de pano, feitos no tear, juntas com suas palavras mágicas, façam um ritual comunitário, com seus entes queridos para contar histórias, refletir sobre o passado, respeitando a ancestralidade. As águas do inconsciente devem ser limpas.
Hino a Net/Neith do Texto da Pirâmide
Aqui ilustra o domínio sobre os horizontes orientais e ocidentais, seu poder sobre a morte e renascimento:
“Abre os portais de Akhet (horizonte)
Abre as travas do Céu, pois vim a ti, ó Net
Vim a ti, ó Chama
Vim a ti, ó Grande
Vim a ti, ó Suprema Senhora das Profecias
Sou puro, pois tenho medo de ti
Mesmo assim, estou contente
Fiques alegre com a minha pureza
Fiques satisfeita com estas palavras
Como é bela a tua face”
Por Pablo Al Masrii
Comunidade Ka em Neter
