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Egípcios Brancos ou Negros?

Pan-africanismo, afrocentrismo, identidades e kemetismo (Parte 5)

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Dica: leia o texto anterior (Parte 4)

Uma ancestralidade africana que se perde no tempo

 

“As mais antigas figuras de marfim foram encontradas no Antigo Egito, esculpidas pelos Badari, uma raça negróide dos egípcios”. Max Toth, Pyramid Prophecies, Destiny Books, (1988)

 

Na verdade, a história egípcia não começa com os períodos dinásticos... e nem os pré-dinásticos (7 mil anos atrás)! E isso não é papo esotérico da "Nova Era", Ela é muito mais antiga, se formos ver as culturas humanas que foram se estabelecendo ao longo do Vale do Nilo, isso há mais de 10 mil anos. Toda a população nilótica era miscigenada, evidentemente em sua maioria de origem africana, como do Sul etíope, sudanesa, líbia e também do Oriente Médio.

O contato comercial com todas as terras vizinhas, traziam consigo elementos dessa miscigenação até formar a “cultura egípcia”, étnica e linguística como um "todo".

>>> No entanto, como é possível abordar apenas a questão de cor de uma cultura miscigenada com mais de 10 mil anos de história? 

 

A formação do “povo egípcio” é um problema de fragmentos, com ocupações, migrações, invasões, etc, muito além de apenas um aspecto (relevante), no caso a cor. Podemos falar de “povo egípcio” do período de Naqada e do período ptolomaico, da mesma forma? É possível renegar a contribuição cultural de outros povos, os quais até fundaram dinastias, como os hicsos e os núbios, por exemplo?

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Pelas iconografias, os artistas egípcios representavam a si mesmos como pardos e negros. Ao longo da História, Kemet teve uma população mestiça culturalmente, composta de hicsos, hititas, mitanes, hebreus, líbios, assírios, núbios, persas, gregos, romanos, fenícios, bizantinos, árabes, etc.. No caldeirão cultural da época faraônica e pré-dinástica, Kemet sempre foi o centro cosmopolita da região. Ainda no século V aec, Kemet mesmo sendo província persa e depois greco-macedônia com Alexandre, ainda manteve-se por 300 anos como uma dinastia ptolomaica em Alexandria, como um “centro do mundo”.

Vale lembrar também que no período da Idade Média, a palavra egípcio estava associada na referência aos ciganos e às pessoas de pele escura. Até o século XVI, todos os termos etíope, egípcio, abissínio e mouro eram usados de forma genérica para se referir a qualquer pessoa negra, isso independente dela ter nascido ou não nestes países.

Os discursos antagônicos contemporâneos

>>> Nisso tudo, o que permanece? A singela e complexa pergunta que continua ocupando os holofotes das redes sociais, debates acadêmicos e até das esferas políticas dos movimentos sociais: “os egípcios, afinal, eram/são brancos ou negros?” 

Tal pergunta continua causando polêmica e desconforto, para todos estes ambientes citados. Não será por que também se trata de uma disputa da história divinizada como objeto de prestígio e “poder”: o “Egito faraônico”? 

Percebe-se nestes embates, certos caminhos que se atravessam e se cruzam, ora ideológicos (pelo aspecto político-racial relevante) e ora situacionistas culturais (não-ideológicos). Existe, portanto, toda uma complexidade ontológica no que diz respeito à forma como as etnias e culturas africanas são vistas e percebidas no e pelo Ocidente. A africanidade, em suma, é ou deve ser percebida antes pelo reconhecimento de seus povos de matriz e depois, pelo olhar ocidental.

 

Os povos do continente africano, toda a sua produção teórico intelectual e histórica recente, ainda passa por um longo processo de descolonização e pode demorar ainda mais para reerguer-se de seu papel de subalterno frente a uma hegemônica estrutura filosófica e política eurocêntrica. Os seus reclamos, pela sua própria autodeterminação multiétnica, devem ser respeitados frente a processos externos de apropriação, identidade e hereditariedade.

 

De fato, o que chamamos de “visão de mundo” hoje, dentro do tal processo civilizatório, faz parte de uma fundamentação da constituição da sociedade contemporânea, baseada pelo protagonismo europeu. O ocidentalismo é uma doutrina de fundamentos políticos, religiosos e sociais, que impõe o olhar e veste a lente às culturas não-europeias (o “outro”) como exóticas e semidesenvolvidas. Esta visão xenófoba foi chamada também de darwinismo social, em que a “cultura ocidental” se enxerga como a detentora do ápice da pirâmide histórica de uma suposta evolução científica e humana.

Devemos nos perguntar afinal, por que não se inclui a História da África nos livros de ensino básico e fundamental? Parece haver uma demonstração de que existe realmente um processo de dominação cultural, oriunda de uma visão eurocêntrica da História. Sempre privilegiando as categorias “universais” (gregas, romanas e judaico-cristãs) e menosprezando as “especificidades” (africanas, ameríndias, oceânicas, siberianas, etc.). Essa ideologia tende a deixar mais determinadas as posições entre o “normal” e o “exótico” como algo incompleto e precário. O estabelecido e o não-estabelecido, o outsider, marginal e periférico.

Para pensar antropologicamente, criou-se dois discursos diferentes e supostamente antagônicos, mas que em sua essência convergem certas similaridades em suas proposições:  

O discurso pan-africanista: 

Este que não se trata do pan-africanismo do movimento político anti-eurocêntrico, mas outro, de natureza filosófico e espiritualista, defensor de um “Egito negro” para os negros, que vem travando uma luta contra uma visão eurocentrista criada pelo próprio Ocidente. Ou seja, trata do mito do “Antigo Egito”, mas que se utiliza deste próprio mito para fortalecer e legitimar a sua hereditariedade, como a fonte primordial da cultura europeia, antes da miscigenação. 

E o pan-africanismo, por outro lado, como movimento político e ideológico centrado na noção de raça, para unir àqueles que, a despeito de suas especificidades históricas, são assemelhados por sua origem humana e negra, deve ser distinguido do pan-africanismo cultural. 
 

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Mesmo que, as críticas atuais sobre o movimento pan-africanista político sejam ásperas no sentido do seu uso das categorias de raça, deve-se levar em consideração que o contexto histórico atribuído ao enfrentamento ideológico frente ao eurocentrismo e ocidentalismo imperial são importantes. 

No entanto, é necessário separar racismo de racialismo. Como assim? Se para os europeus a categoria raça foi utilizada como ferramenta de opressão, para os pan-africanistas ela se tornou um conceito aglutinador, ou seja, no sentido de responder a essa dominação.

Aqui, nesta concepção específica, raça seria então um ponto central, como afirma Diop, Fanon e Appiah. A “África unificada” como “pátria dos negros”, da mesma forma como a Europa seria a “pátria dos arianos”. Esse discurso de "unidade política e racial" só é concebido naquela ideia de “africano” como se fosse um sujeito unitário. Esse discurso unitário também pode ser encontrado em William Edward Du Bois em sua obra The Negro, que foi militante do movimento negro, dedicando um capítulo especial à questão do “Antigo Egito”. 

Em outras referências da defesa pan-africanista cultural podemos citar o senegalês Cheikh Anta Diop, em “A origem dos antigos egípcios” e “A origem africana da civilização, mito ou realidade”. Aqui, Diop faz as seguintes argumentações: 

  • do ponto de vista antropológico - na concepção de que a raça humana teria se originado na África e que a população seria então homogênea e negra;

  • iconográfica - já que os egípcios se representavam em pinturas e estátuas como negros;

  • testemunhos de fontes escritas antigas que se referiam ao povo egípcio como sendo pretos;

  • e a autodenominação que os próprios egípcios se davam, como nos termos kmt.

Portanto, para Diop, além dos antigos egípcios serem negros, simboliza ainda o resultado moral da “nossa civilização”, que deve ser narrada a partir da herança da cosmovisão negra, tal como a ciência moderna, a filosogia, cosmogonia, etc.

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Portanto, para Diop, além dos antigos egípcios serem negros, simboliza ainda o resultado moral da “nossa civilização”, que deve ser narrada a partir da herança da cosmovisão negra, tal como a ciência moderna, a filosogia, cosmogonia, etc.

E outro intelectual pan-africanista, a principal liderança do afrocentrismo, Molefi Kete Asante, vai mais além ainda, afirmando que essa concepção converge com o "histórico projeto" que pretende levar o negro de volta ao centro do mundo, em uma clara inversão lógica ao eurocentrismo. Assim, os afrocentristas assumem que cultura e civilização são racialmente determinadas. Para ele, “a cultura europeia ocupou todos os assentos intelectuais e artísticos e não deixa espaço para os outros.” (Asante, Molefi. Afrocentricidade: A  Teoria da Mudança Social

 

>>> E por fim, é tão crucial assim discutir e mostrar o foco da análise sobre provar ou não o grau de porcentagem de africanidade do povo egípcio? 

 

O pan-africanismo, com seus ideais de emancipação e “identidade cultural” talvez tenha sido pego de surpresa na armadilha do mito de origem, deixando transparecer assim a postura fetichista para com os costumes, o folclore e as tradições vernaculares de seu próprio povo. 

>>> Não será exatamente isso que ocorre quando se utiliza a linguagem do imperialismo, no sentido de se "assemelhar" ao discurso eurocêntrico?

>>> Ambos discursos travam um combate teórico. Porém, eles só o fazem à luz da cor e não necessariamente à cultura/etnia, etc. 

 

>>> No entanto, reivindicar esse passado “histórico e glorioso”, por esses discursos, não seria assumir também "verdades" de sua história? 

 

>>> E, ainda… o atual povo egípcio, que continua e permanece defendendo suas origens, por acaso não possui voz relevante? 

O problema do conceito de raça

 

Na verdade a questão racial passa pelo complexo dilema nas sociedades atuais: a questão da identidade em si e identidade para si, e como os outros a percebem. Por isso, criou-se um tipo de tabu. 

Os europeus inventaram o conceito de raça como nós o conhecemos hoje. Porém, os conceitos mudam com o passar do tempo. Em momentos de processos coloniais, se teve necessidade de categorizar status, privilégios, classes, etc. 

E se formos nos recordar de um recente passado, as "nações" europeias na Idade Moderna, não eram nem consideradas como nações e por isso nem existia a probabilidade de ser chamado de "italiano”, "alemão" ou “espanhol” (ainda hoje). 

A partir do momento em que os europeus passaram a utilizar o termo “raça”, foi apenas para diferenciar certos "grupos tribais", para a fundamentação das suas teorias evolucionistas do século XVIII e XIX.

>>> Para lembrar, ironicamente, desde a pré-história, os “africanos” migravam para a Europa e por lá ficavam até realizar novas migrações. Isso ocorreu durante muitos milênios após a ocupação do norte-africano pelo Homo de Cro-Magnon. E mais, por 500 anos, a maior parte da Espanha estava sob o controle mouro/africano. E pouco tempo depois, os colonizadores espanhóis que se aventuraram a "colonizar" terras fora da Europa, usaram o conceito de raça como justificativa para instrumentalizar a sua subjugação política, cultural e religiosa. 

Com o iluminismo científico, o nacionalismo europeu se institucionaliza, e com ele vem as teorias racialistas. Só para exemplificar, temos registrada uma obra que representa esse discurso: Crania Aegyptiaca: Observations on Egyptian ethnography, derived from anatomy, history, and the monuments de 1844, de Samuel George Morton, médico expoente da craniometria. 

Nessa ideia de legitimar uma nova “Europa unitária”, necessitou-se de também inventar uma “África unitária”, que antes não existia. Assim, cria-se o mito da África. E de forma intencional, negando inclusive muitas raízes étnicas consideradas antes como "bárbaras", os europeus simplesmente escolhem para sua linhagem e herança cultural, no conceito de “pureza ancestral hereditária”, os gregos como “berço da civilização ocidental”. Isso terminou por afastar radicalmente toda hereditariedade das diversas culturas e etnias que ali existiam antes. 

Cientificamente e lamentavelmente, a antropologia da época foi responsável por essa concepção de raça que preparou o terreno para a fase imperialista europeia. Ver classificação de raças taxonômica feita por Johann Friedrich Blumenbach (1752-1840).

E, como a antropologia estava lado a lado com a egiptologia na época, sendo cadeiras recentes, essas teses serviram de fundamento para os egiptólogos que passaram a defender o discurso de um “Egito branco”. 

É possível ver uma teoria racial no cientista natural Samuel George Morton (1799-1851) onde analisava crânios da “raça dos antigos egípcios”:

1. O Vale do Nilo, foi originalmente povoado por uma mistura de caucasianos e semitas (mais brancos);
2. Esses povos primordiais, então chamados egípcios, foram os mizraimitas bíblicos, na posteridade de Cam, que diretamente se mesclaram com os líbios;
3. Na sua aparência física os egípcios eram intermediários entre os indoeuropeus e os povos semitas;
4. Reis do Egito parecem ter se originado incidentalmente de cada uma dessas nações;
5. Os atuais Fellahins fazem parte da linearidade mais baixa dessa mistura dos descendentes dos antigos egípcios.

 

[... continua]

por Pablo Al Masrii

Por Pablo Al Masrii

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