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Egípcios Brancos ou Negros?

Pan-africanismo, afrocentrismo, identidades e kemetismo (Parte 2)

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Dica: leia o texto anterior (Parte 1)

A construção de uma antiga identidade cultural egípcia

 

Os estudiosos, antropólogos, historiadores e defensores de uma identidade egípcia nos convidam a esta importante reflexão a fazermos. Para eles, e creditamos o suficiente para isso, o povo egípcio (“Baladi” segundo Gadalla) está intimamente ligado à sua terra natal, à sua geografia sagrada. Percebemos nitidamente isso pela sua população que se concentra nas mesmas regiões do Baixo e no Alto vale do Nilo, nessa pequena faixa de terra cultivável que se estende desde a primeira catarata até o Mar Mediterrâneo, como há 8 mil anos atrás, desde Naqada I até hoje. Tal geografia tem sido a base do desenvolvimento, da cultura agrária, do conhecimento ancestral popular, da sociedade egípcia desde a antiguidade.

Vamos para a língua: a língua coloquial falada pelos egípcios hoje não é o árabe clássico, que veio de fora. É um dialeto próprio. Chama-se árabe egípcio ou masri. Além disso, os egípcios que moram no Alto Egito nem falam esta, mas uma outra, chamada saidi. Isso sem falar que uma porcentagem considerável de egípcios são coptas (descendentes do período tardio da “antiga civilização egípcia”), e que o utilizam como língua litúrgica.

Vale dizer ainda que, entre os povos do chamado “Oriente Médio”, apenas os egípcios permaneceram geograficamente onde estavam e mantiveram seus costumes sociais (festividades que ainda existem desde o período pré-islâmico, culinária, cidades dinásticas) e econômicos (técnicas de agricultura, conhecimentos em geral), mesmo embora, tenham alterado sua língua, uma vez que foi proibida de ser falada. Desta forma, de acordo com o historiador do Médio Oriente, Arthur Goldschmidt, o povo egípcio constitui, sem dúvidas, uma das nações mais antigas do mundo.

Enquanto nação viva, é interessante notar que a palavra em árabe “Masriin”, que origina “Masrii” (Egito), tem como raiz o semítico que designa “civilização” ou “metrópole”. O orientalista Edward William Lane, escrevia na década de 1820, que os egípcios arabizados se chamavam como “Al-Masryyīn” (“os egípcios”), “Awlad Masr” (“os filhos do Egito”) ou “Ahel Masr” (“o povo do Egito”). Semelhante a isso, os egípcios dinásticos chamavam, além de Kemet, “Remeten Kemet”, o antigo nome original que significa literalmente “O povo de Kemet” ou simplesmente encurtado para “Remet” ("o povo").


>>> Geralmente os historiadores interpretam que o termo Kemet fosse uma referência às terras férteis das margens do Nilo. Mas não seria o caso de Kemet ser usado para se autodenominarem como remet-en-kemet, ou seja, "o povo da terra negra"?

Para refletir este ponto, usamos a explicação do historiador e antropologista senegalês Cheikh Anta Diop:

“Os egípcios tinham apenas um termo para designar a si mesmos: kmt = “os negros” (literalmente). Dessa palavra, a origem etimológica da conhecida raiz kamit, que proliferou na moderna literatura antropológica, deriva, provavelmente, da raiz bíblica kam.”

Os egípcios modernos, sabe-se pelos dados estatísticos que a sua maioria é mesmo nativa do Egito, onde chegam a representar 91% da população total (mais de 90 milhões de egípcios). Esse dado é muito interessante e merece uma reflexão a ser feita. Se no nosso mundo globalizado e moderno, de fácil acesso à mobilidade, no desenvolvimento cosmopolita dos centros urbanos, já o povo egípcio manteve-se “fiel” à sua terra, desde períodos dinásticos e pré-dinásticos. É fato que o nativo egípcio é um dos povos que menos migram no mundo! E certamente ocorreu o mesmo, apesar de todos os processos que sofreram, de ocupação, invasão e despojo.

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>>> Mas, infelizmente, um dos argumentos mais usados nas teorias eurocêntricas afirma que a origem da “cultura egípcia” se deu graças à mescla étnica e tecnológica de povos asiáticos, quando não, europeus. Vide tais argumentos vindos de certas "autoridades" como Wallis Budge, Piazzi Smith, entre outros.

Apesar de se acreditar que todo egípcio é muçulmano, porém, estima-se que na verdade, em números reais, 85% da população são sim adeptos do islamismo (nem todos praticantes, como ocorre no catolicismo), 12% são cristãos, 12% coptas e 2% das demais crenças.

>>> Vale lembrar, a prática “cristã” e muçulmana devem ser relativizadas, pois, como no Brasil, “cristãos” são dados numéricos quantitativos de batismo, mas que não refletem a religiosidade (qualitativa) de uma grande massa.

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A grande massa da população egípcia não vive nas cidades, e nem a metade é urbana. A sua grande maioria na verdade é chamada de fellahin/baladi, que significa “nativos”, “do interior”. E a eles somam-se vários tipos de descendências de outras tribos árabes que vivem próximas às cidades e aldeias rurais.

>>> Isto é: esse dado estatístico parece não se alterar desde os tempos pré-históricos, onde as cidades apenas funcionavam (e funcionam) para a realização das trocas comerciais e administrativas do Estado.

Por essa razão, os egípcios também tendem a ser chamados de provincianos, o que significa que o seu apego não se estende apenas ao país, mas às suas províncias natais, as cidades e aldeias específicas, de onde eles sempre fazem alusão e saudosismo. 


Esse enraizamento, o amor à terra natal, é bem característico do povo egípcio, reconhecido por povos vizinhos, e que se explica pelo seu longo processo de estabilização da sua cultura durante dezenas de milênios. De um povo 100% agrícola, alocado às margens do Nilo e de alguns oásis ou playas sazonais, tão significativa para as gerações passadas e futuras, nenhum egípcio se afasta de seu rio sagrado. Com certas exceções de egípcios que habitam a costa mediterrânea, como os alexandrinos, encarando o mar com vista para o Mediterrâneo, em geral, o egípcio permanece no interior e com pouco apetite para viagens, mesmo até dentro de seu próprio país. Assim, glorificam seus pratos nacionais, seus costumes artesanais, suas relações comunitárias.

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É na educação que os egípcios modernos se identificam com cada camada da sua longa história, tecendo assim, um enorme senso de identidade coletiva. Tal identidade coletiva, por exemplo, veio à tona no início do século XX, quando os egípcios nacionalistas buscaram se libertar da ocupação britânica. Levando consigo a emergente necessidade de se emancipar, deram origem a um novo nacionalismo, étnico-territorial que ficou conhecido como "faraonismo", em alusão ao resgate histórico de seu passado glorioso, frente a um Ocidente que permanecia com suas garras imperialistas em seu país.

[... continua]

Por Pablo Al Masrii

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