
Egípcios Brancos ou Negros?
Pan-africanismo, afrocentrismo, identidades e kemetismo (Parte 1)

“Parece que os colcos são egípcios (...) e eu mesmo comparei as seguintes coisas: porque eles tem suas peles negras, cabelos crespos (...)”
Heródoto de Halicarnasso (480 - 425 aec),
Histórias, Livro II, Euterpe, tradução do original
Conceito de Egito/Khemet
Egito está em África.
>>> Essa afirmação pode significar muita coisa, mas, ao mesmo tempo, em uma diferente perspectiva, pode não dizer nada também. E para quem não está dizendo nada? Com quem se dialoga? Em muito, as milhares de tentativas de enquadrar o Antigo Egito a esta ou àquela cultura/civilização/padrão/cosmovisão/filosofia/geografia/etnia, foram vitoriosas e, ao mesmo tempo, muitas delas foram inconsistentes.
Mas antes de se tentar “definir” e responder à primeira questão, vamos fazer o exercício da desmistificação...
Em primeiro lugar, que o termo “Egito” não é um consenso. Como assim? Essa palavra só é utilizada no Ocidente para designar aquele país que atualmente (há mais de 1.500 anos!) se autodenomina “Misr”, em árabe. Mas, antes disso, ele foi chamado de muitos nomes. Nem sempre pelo seu devido nome, é verdade.
>>> Como os nativos o chamavam? De Kemet.

Portanto, Kemet (tradução de “Terra Negra”) é o nome correto ao afirmar que o povo que ali habitava o chamava. Habitava, não habita mais? De fato, segundo o egiptólogo independente e egípcio, Dr. Moustafa Gadalla, o povo que ainda habita Kemet atualmente, pertence às descendências de seus antepassados, independente dos costumes, línguas e crenças pós-estabelecidas. Para outros, e normalmente para a grande maioria do senso comum, o país que se chama “Egito” teve a sua antiga história no passado, mas não revive mais as suas crenças, culturas, etc. Para estes, “Egito”, e não “Kemet”, são faces distintas, que não convergem mais, dado o hiato histórico.
Em segundo lugar, de acordo com determinadas correntes da historiografia africana, o próprio conceito de “África” é, em si mesmo, uma construção ontológica, filosófica e, acima de tudo, política. Assim, como veremos a seguir, estas questões, e outras, estão sendo debatidas, ora radicalmente, ora insuficientes, por um grande quadro de teóricos, ativistas e doutores, pelo mundo todo.
Nosso propósito não é abordar culturas antigas e presentes, nosso foco é trazer à discussão (e não encerrar o assunto) sobre o conceito de etnia, cor e identidade, dentro do campo da historicidade antiga (dos pontos de vista não-eurocêntrico e eurocêntrico), da antropologia cultural e da sociologia étnica.
Antes de “responder” às questões, que vem ao longo de 40 décadas, polemizando os debates acadêmicos e não acadêmicos, sobre as origens dos antepassados dos antigos egípcios, sobre a cor de sua pele, ou o processo de aculturação sofrida ao longo do tempo, teremos de encetar certos conceitos.
O mito dos antigos egípcios e modernos
>>> Quando diferenciamos “antigos egípcios” de “egípcios” estamos, na verdade, realizando qual movimento? Será apenas histórico ou traz consigo um fundamento velado, de cunho político-religioso? Como deveríamos utilizar estas terminologias e por quê?


>>> Afinal, os antigos egípcios não existem mais? Por quê? Por qual critério que se caracterizaria chamar de “antigo egípcio” e não mais “egípcio”? Apenas a língua falada, escrita hieroglífica e crenças? O mesmo ocorre com o indiano, cuja língua moderna não é mais o sânscrito e nem por isso os denominamos de “antigos indianos”... ou o povo tamil, o iraniano, o macedônio, etc?
“Egípcio”, antes de mais nada, é configurado e aceito oficialmente como “o grupo étnico contemporâneo que habita o Vale do Nilo”. Ponto. É verdade! Assim encontra-se nas principais enciclopédias e léxicos oficiais. Assim sendo, “egípcios” são hoje um grupo étnico nativo do Egito e cidadãos desse país que partilham uma cultura em comum e um dialeto comum conhecido como “árabe egípcio”.
Vemos sinais de algo do passado, como afirma Gadalla, sob um fino véu baixo a sombra de culturas e identidades étnicas que se sobrepuseram historicamente ao longo de muitos milênios.
>>> Caracterizar o povo nativo egípcio como “não nativo” historicamente, não seria o mesmo que desacreditar a identidade dos ameríndios atuais dos seus antepassados, mesmo que estejam longe de suas florestas originárias? Observando mais atentamente o fato de continuar a renegar o passado de um povo que resistiu há mais de 2 mil anos às contínuas invasões e destruições de sua cultura e costumes originários, não estaríamos nós, ocidentais, reforçando esse processo de achatamento identitário e autodeterminativo?

Considerar, por exemplo, todos os povos que tem o árabe clássico como “língua oficial” como “povos árabes” não seria homogeneizar e dar continuidade a uma forma nova de colonização? Quantos dialetos, povos, etnias, cores, existem debaixo do grande tapete árabe, principalmente, no norte sahariano africano?
[... continua]
Por Pablo Al Masrii
