
A FASCINANTE LITERATURA KEMÉTICA

A literatura kemética é vasta e bastante diversificada. Você sabia que, além de textos sagrados e de sabedoria filosófica, também há uma ampla variedade de literaturas narrativas, poéticas, históricas, biográficas e críticas? Acompanhe-nos nesta introdução à essa fascinante história da literatura kemética!
A história da literatura kemética compreende tantas formas quanto seu número de registros deixados ao longo do tempo. A literatura foi preservada em rolos de papiros, ostracas de calcário, tábuas de madeira, gravações em monumentos e túmulos. São encontradas belíssimas narrativas, poemas de amor, cartas aos antepassados, mitos e lendas antigas que tradicionalmente eram orais, textos sagrados, obras filosóficas, autobiografias, ensaios críticos sociais, além de documentos judiciais e profissionais. Na verdade, mesmo que hoje muitas dessas categorias não sejam bem definidas como sendo "literatura", ainda assim, pela egiptologia elas continuam recebendo essa designação porque estes textos possuem, de forma geral, um rico teor literário, linguístico, de escrita, de pensamento, etc.
Assim, se formos aos primórdios da ancestralidade literária kemética, podemos encontrar os primeiros traços dos períodos pré-dinásticos (c. 6000 - c. 3200 AEC), no formato de oferendas listadas e.... autobiografias! A autobiografia mais antiga foi gravada no túmulo de um sacerdote, para que seus descendentes dessem continuidade ao culto ancestral (Akhu) fornecendo dados precisos sobre a quantidade de alimentos e outras determinações do falecido. Dessa lista de oferendas ao Ka do falecido em sua jornada no Duat, posteriormente encontraremos os Dua Kau (Rezas para os espíritos ancestrais), bem como outras obras literárias padronizadas onde autobiografias, explicando quem era o falecido, surgiriam.

Entre as literaturas mais destacadas, àquelas do período do Reino Médio são consideradas como "clássicas" na literatura kemética. Isso se deve porque nesse período, costuma-se observar que sobreveio a forma mais sofisticada da escrita hieroglífica e a mais frequentemente vista em monumentos e registros históricos. Para a egiptologia, é neste período que a literatura passou a refletir toda a profundidade e maturidade que a cultura kemética começou a ganhar após as instabilidades sociais do Primeiro Período Intermediário. Como uma forma de resgatar os "períodos dourados" do Reino Antigo, gêneros anteriores foram aprofundados, e com eles, alguns gêneros que antes não existiam, começaram a surgir, como por exemplo, a literatura crítica ou pessimista, com inclusão de pensamentos filosóficos e de auto-análise. É neste último gênero que tornam as obras do Reino Médio, a expressão inédita de uma profundidade de entendimento sobre a complexidade da vida, no entanto, na forma bela de prosa. Entre as obras mais conhecidas desse gênero estão:
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A Disputa Entre um Homem e seu Ba (alma);
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O Camponês Eloquente;
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A Sátira dos Ofícios;
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A Instrução do Faraó Amenemhet I por seu filho Senusret I;
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As profecias de Neferti
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As advertências de Ipuwer.


Todas essas obras oferecem breves "máximas" (que milênios depois, livros como os "Provérbios de Salomão", "Eclesiastes" e "Salmos" foram influenciados)¹ como formas de instrução que compreendiam o gênero "sabedoria" já eram difundidas pelo antigo Oriente Próximo e norte da África. A mais antiga delas pertence ao príncipe Hardjedef, que foi escrita ainda na V Dinastia, onde inclui instruções sobre higiene ritual ("Limpe-se diante de seus próprios olhos"), ética, respeito e responsabilidades sociais, na família, comportamental ("A gula é a base e é reprovada, pois um copo de água sacia a sede e um bocado de ervas fortalece o coração").
Na "Disputa entre um homem e seu Ba" (preservado no Papiro de Berlin 3024) texto considerado como o mais antigo que irá abordar o tema sobre suicídio, mostra um debate filosófico entre um narrador e seu Ba sobre as dificuldades da vida e como se deve viver nela. Ali, estão a profundidade humana, na gama de experiências de vida tocadas. Já no "Camponês Eloquente", um homem pobre apresenta seu caso ao intendente da cidade com queixa contra um homem rico. Em "A sátira dos ofícios" mostra o aconselhando de um pai a seu filho para se tornar um escriba, porque a vida é difícil e a melhor coisa na vida que torna possível a experiência humana são os estudos.
Em "A Instrução de Amenemhat" mostra o espírito (Ka) do rei morto e adverte seu filho a não confiar em todas as pessoas, porque nem sempre são o que parecem, por isso, o melhor caminho é levar a sério os conselhos dos mais velhos e desconfiar de estranhas boas intenções. Este conselho é muito parecido, por exemplo, com a história famosa de Hamlet, de Shakespeare, onde Polônio aconselha seu filho sobre seus amigos.
"As Admoestações de Ipuwer" já aborda como a literatura didática é importante para estabelecer consciência sobre o tempo presente, momentos de incertezas, com momentos onde tudo na vida parece dar certo. Outras, como as narrativas em prosa, do "Conto do Marinheiro Náufrago" e a "História de Sinuhe", ambas do Reino Médio, destacam genialmente os problemas sociais e as complexidades que Kemet experimentou durante o Primeiro Período Intermediário (2181-2040 AEC).
Porém, no Reino Novo, os temas abordados são frutos das referências sociais e culturais que ocorreram no Segundo Período Intermediário (1782 a c.1570 AEC), época onde Kemet foi dividido entre invasões estrangeiras e conflitos internos para reestabelecer o poder. Essa "memória da invasão hicsa" permaneceu muito fresca na mente dos egípcios e refletiu-se na literatura da época. Essa literatura desenvolvida exibe uma abordagem mais cosmopolita, com histórias e poemas, mas também sobre injustiças, valores modernos x tradicionais, outros paradigmas.
Aqui, a literatura do Reino Médio agora é considerada como "clássica" e passa a ser estudada por jovens escribas que aprenderam a interpretar seus textos. No Reino Novo, as obras destacadas no Papiro Lansing e Papiro Chester Beatty IV, mostram a importante função do escriba como instrutor, o conceito da natureza sagrada das palavras, em Dua (rezas e orações), instruções de sabedoria e histórias. A estrutura narrativa da obra em prosa tem elementos de trama, como na "Verdade e Falsidade" ou "A Cegueira da Verdade pela Falsidade". Mas dois dos contos mais conhecidos são "O Príncipe que foi ameaçado por Três Destinos" ou "O Príncipe Condenado" e "Os Dois Irmãos". O primeiro, possui praticamente todos os elementos daqueles contos de fadas europeus típicos. No segundo, conta a história de irmãos divinos (Anpu e Bata) que moravam junto com a esposa de Anpu, e explica uma estória de amor, traição e condenação. Ainda desse mesmo período, temos o texto "As Contendas de Heru e Set", embora a história real seja, sem dúvida, bem mais antiga. Há estudiosos que afirmam que esta obra possam ser as precursoras de duas das tramas mais populares da literatura ocidental: "Hamlet" e "Cinderela". A história dos marginalizados que reconquistam o que seria deles por direito, e às vezes a um alto custo, por isso, continuam ressoando até os dias atuais.
Basicamente, todo o corpo dos contos do Novo Reino incluem a "Discussão de Apep e Seqenenra", "A tomada de Jope", o "Conto do Príncipe condenado", o "Conto dos dois irmãos" e o "Relatório de Wenamun".
Embora os conceitos filosóficos e religiosos do chamado "Livro Egípcio dos Mortos" (Reu Nu Peret em Heru) tenham se originado na longínqua fase pré-dinástica, e o livro tenha começado a se formatar no Reino Médio, ele se tornou extremamente popular no Novo Reino. Essa obra, para o kemetismo, é de extrema importância, que fundamenta seus princípios, repleta de uma longa série de conceitos e instruções, tanto para os vivos quanto para os mortos. Como a literatura, de uma forma geral, abrangia todas as esferas do saber antigos, e como Kemet estava no centro científico e cultural da região, podemos afirmar que ajudou a servir como base para trabalhos posteriores. Porém, pelo fato da maioria dos textos serem destruídos, suas bibliotecas queimadas, a sua escrita e fala fossem proibidas a partir do século IV EC, hoje não é possível encontrar suas referências no Ocidente. O melhor que se pode argumentar é que as tradições e povos vizinhos, que escreveram suas narrativas posteriores, estavam familiarizados com algumas versões desses textos, e a partir daí, emprestaram suas ideias.

Em obras conhecidas como "proféticas" temos a "Profecia de Neferti" do Período Raméssida, que sofreu um reavivamento durante a dinastia ptolomaica grega e no período romano, em obras como a "Crônica Demótica", "Oráculo do Cordeiro", "Oráculo do Potter" e dois textos proféticos enfatizados em Nectanebo II (360-343 AEC).
Além do emprego da escrita para as funções estatais e religiosas, os escribas atendiam a população na redação de cartas, por exemplo, para a confecção de documentos de vendas e negócios, documentos legais, entre outros, em uma ampla rede muito organizada de atendimento. Por esta esta razão, o escriba tinha um reconhecido status social. As Escolas de Escribas eram responsáveis por manter, transmitir e sacralizar os clássicos literários, instruir a população e escrever novas composições. No entanto, ao contrário do que se acredita, existem casos conhecidos em que trabalhadores, camponeses e comerciantes, também eram alfabetizados e tinham acesso à literatura clássica, tal como:
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Menena, um artista desenhista que trabalhou em Deir el-Medina na XX Dinastia, citava longos trechos das narrativas do Reino Médio;
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Hori, contemporâneo de Menena, sabemos que advertia a seu destinatário por citar a "Instrução de Hardjedef " para uma pessoa semi-educada. Assim, há evidências sólidas, obviamente não em grande quantidade, que a literatura era ainda uma prática de leitura oral para o público em geral.
Cartas particulares foram usadas em tribunais como testemunhas, já que a caligrafia de uma pessoa podia ser identificada como autêntica ou não. O egiptólogo Richard Parkinson afirma que há muitas evidências de que os textos de instruções (Sebayt) não foram só criados para a educação interna das Casas da Vida (Per-Ankh) e dos escribas, mas também, para fins filosóficos e ideológicos. Isso pode ser verificado etimologicamente nos termos "conhecer" (Rekh) e "ensinar" (Seba).
Por Pablo Al Masrii
Bibliografia
Lichtheim, M. Literatura Egípcia Antiga: O Novo Reino, Volume II. (University of California Press, 2006).
Lichtheim, M. Literatura egípcia antiga: o período tardio, volume III. (University of California Press, 2006).
Lichtheim, M. Literatura Egípcia Antiga: Os Reinos Antigo e Médio, Volume I. (University of California Press, 2006).
1 - Segundo os estudiosos do Antigo Testamento, esses livros foram escritos ao longo de 300 anos em período provável entre 960 e 686 AEC - pela passagem do rei Ezequias (capítulo 25), e do exílio babilônico por Nabucodonosor. "Provérbios" se traduz no hebraico por "mashal", que significa "instruções", tal como Sebayt, em egípcio antigo.
2 - PARKINSON, Richard. Poetry and Culture in Middle Kingdom Egypt: A Dark Side to Perfection. London. 2002. p. 78–79
