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O Sentido da Vida

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A pandemia global do coronavírus parece ter criado um abismo humano. Como nossa visão de mundo é antropocêntrica, então criou-se um abismo planetário, universal. Mas, ao seu contexto real, certamente, um abismo de crise existencial e de sofrimento. Mas será? Não será possível que antes não estávamos rumo a uma jornada de sofrimento humano, existencial, mesmo velada? O que de fato afetou o comportamento, humano, psicologicamente falando? Será mesmo o fator "isolamento social"? É claro que como afirmou nosso mestre Aristóteles, somos animais sociais. A nossa rotina de formiguinha do sistema foi brutalmente alterada, nossa vitrine social ofuscada, nosso condicionamento social, diluído.


A vida parou, a sociedade não anda mais, avisam. Mas, qual é o sentido da vida? Qual vida estamos falando? A biológica, a desejada ou a social? O que é vida? O que é estar vivo? O que é viver? O que é disfrutar da vida? Será que vivemos em um mundo 100% global com todas as culturas, povos e sociedades sob o mesmo teto dos conceitos? Nossos conceitos e visões são todos os mesmos, com seus valores compartilhados?

As coisas do mundo, internas e externas, em épocas de crise existencial costumam voltar para as mesmas indagações. No momento pico onde suicídios batem recorde, agendas de psicólogos e psiquiatras lotam por causa de agravados transtornos, estas perguntas saem do armário novamente. Ou de debaixo do tapete humano. No momento em que este texto é escrito, o vírus matou mais de 2,9 milhões de pessoas em todo o mundo, ceifando a vida humana em quase todos os países do planeta.

 

Um abismo entre os mundos
 

As economias pararam, as reuniões mudaram para o remoto e virtual. As rotinas diárias parecem ter sido alteradas significativamente. Nossas vidas pré-pandemia já estavam se virtualizando, não exatamente no sentido de usar plataformas e mídias sociais. Com esta abordagem, propomos um descanso suspenso para a condição humana em que estamos mergulhados.

Enquanto a pandemia assola vidas humanas, a Terra se aproxima velozmente de pontos críticos. Esses impactos humanos estão causando níveis alarmantes de danos ao nosso planeta. Em outro sentido, mas no mesmo nível crítico, temos um outro grande problema: o bombardeio diário em tempo real de informações e desinformações via internet, sobre tudo e sobre nada. Eis como a nossa vida cotidiana tem se transformado: em verdadeiros filtros ou bules ambulantes para conteúdos massivos.

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Quem imaginava que em pleno século XXI, década de 20, da revolução digital, avanço tecnológico 4.0, inteligência artificial, internet das coisas, robótica, estará impresso na memória daqueles que sobreviverão a isso, que uma pandemia global assolou o sistema. Ocorrendo agora em tempo real em pleno vapor da máquina capitalista que impulsiona todas as forças das sociedades... esgotando suas forças e energia apenas para permanecer minimamente funcional em um quadro extremamente grave em todos os sentidos. Crise socioambiental, política, sanitária e crise psicológica sistêmica.

Na verdade, nosso modelo social é baseado, além do trabalho, mas na interseção da crença moderna da ciência básica e da prática clínica. Ou seja, estar vivo também é estar ligado à confiança plena na autoridade eclesiástica da medicina, e nada mais.. "estou doente", "estou fraco", "estou aquém de minhas capacidades", "procuro na esquina um remédio", "vou atrás de um doutor e pronto, terminou meu problema real". A vida se baseia em relações de trocas materiais e materiais.

O problema é que o sofrimento e a desesperança, não na vacina, mas no sentido da vida, é cognitivamente ameaçador. O caso da pandemia parece ter aberto uma rachadura abismal sobre o problema de quem somos e o que idealizamos que somos. Ou seja, viola suposições profundamente arraigadas sobre o mundo. Escancarou de forma crônica, e agora persistente e duradouro, altera a psiquê das pessoas de maneiras fundamentais e profundas.

Consumo de valores

Isso é diferente da dor física da doença, que geralmente é explicável. As pessoas desenvolveram esquemas, ou modelos de sistemas, de como se organizam, interpretam e dão sentido ao mundo. Esses esquemas só existem porque estão inseridos em culturas. Desenvolvem visões de mundo (cosmovisões) consensualmente validadas, projetadas para dar amparo emocional às pessoas, com explicações que possam ser aceitas de forma cada vez mais fácil.

Esse consumo de receitas sobre a natureza da vida, diz sobre o lugar da humanidade hoje. E é exatamente aí onde entra o furo da questão.

 

As cosmovisões facilitam o processamento ideal sobre as relações sociais. Mas, também pretendem dar significado à vida de todos, contra outro vírus: o vazio existencial em potencial, o medo em relação às realidades existenciais.

Por exemplo, as pessoas podem acreditar que a vida é injusta e que pessoas más receberão seu karma, o que lhes é devido. Essa crença em um mundo justo para os bons, as “pessoas de bem”, ajuda a dar sentido às suas vidas e à sociedade.

Porém, quando se abre um abismo existencial, a visão de mundo pode se tornar ineficaz. Em outras palavras, as cosmovisões respondem a questões existenciais. Quando o projeto ideal de vida e sociedade não traduz a realidade, o medo enfraquece essa estrutura de fornecimento de segurança, deixando tudo sujeito a um vazio.

 

Além disso, cada pessoa pode tentar criar uma narrativa sobre sua vida e identidade, que justifique uma ampla gama de ações. Apesar da incerteza dessas questões existenciais, talvez a única certeza na vida, seja a morte.

 

Cada ser humano tem plena consciência de que é mortal e, como qualquer outro animal, um dia morrerá. Essa percepção da morte, desperta o potencial para um medo existencial e motiva uma série de comportamentos doentios, como defender a visão de mundo cultural de alguém ou de algo. Mas, qual é o sentido da vida para aqueles que não dão sentido a ela? Como, por exemplo, milhares que em plena pandemia se aglomeram, em festas e eventos, rejeitam incontesti provas científicas da morte, do risco de morte, de contágio severo, como negacionistas de plantão, ou provocam um genocídio velado?

A constatação de que se vive em um mundo sem forma, mas que exige escolhas, quando se parece que se está isolado e deve-se a todo instante encontrar uma identidade autêntica, só cai por terra quando a única certeza na vida é que ela acabará com a morte. Assim, é provável que experimente preocupações existenciais de maneira bastante aguda: na falta de sentido.

A falta de sentido é a culminação de outras questões existenciais. Rejeita as visões das pessoas e narrativas, provoca tremores de morte e aumenta a probabilidade de que alguém morra mais cedo. Essa histeria da vida sem sentido é uma visão de mundo indiferente, fria e com sentido claro: um ataque à existência.

A patologia é autoexplicativa para o comportamento ilógico e irracional daqueles que negam os riscos da morte, da pandemia. Dizer que o vírus não é real ou que a vacina é placebo, é um mecanismo de defesa proximal para acelerar a ameaça percebida.

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Tal sofrimento existencial impede a capacidade de encontrar sentido na vida. E isso contagia a capacidade das pessoas de encontrar um sentido para a vida, principalmente para quem já está em efeitos negativos em cascata sobre a saúde mental. As novas visões de mundo de massa, como esquemas binários, praticamente medievais (no sentido teológico) são notoriamente difíceis de mudar, onde as pessoas procuram seletivamente informações que se alinham com suas crenças preexistentes e boicotam conhecimentos que são contrários a elas.

Kemetismo e Ação

Como o kemetismo pode ajudar nisso? Individualmente, desconstruindo a si. Será que não é contraditório estar debaixo da sombra de uma árvore como paganismo, movimento defensor de tradições ambientalistas, inclusivas, de igualdade, anti-dogmáticas, e ser conservador ou omisso a posicionamentos conservadores? Propor good vibes e todas as similaridades vibracionais quando se apoia políticas de ódio? Não apenas o kemetismo para os dias modernos, mas qualquer antiga tradição que possa fazer esta reflexão sobre o sentido da vida moderna, que traga em seu cerne o centro de realidades como questões profundas, é desestigmatizar a experiência em um contexto mais amplo.

Por que não questionar, levantar a mão e abordar que o sofrimento real do mundo se liga a traumas anteriores à pandemia, entender porque seu coração e mente experimentam medos existenciais.

Enquanto o mundo civilizado e de bem ignorar a realidade de seu sofrimento, ele será incapaz de seguir em frente rumo a qualquer tipo de “redenção”. Isso se houver ideal de redenção. Quem luta pelas preocupações relacionadas ao mundo, à sua identidade, podem trabalhar no sentido de elaborar uma nova narrativa à luz de nossa realidade atual.

Existem maneiras de construir significado sob a realidade pesada de nossa finitude humana. Uma dessas práticas keméticas é fazer com que se venere e respeite seus antepassados e seu próprio obituário. Perguntar a si, se recordam suas quartas, quintas e sextas gerações passadas a seus pais e avós. Perguntar pelo quê querem ser lembrados - ou seja, imortalidade simbólica, que pode ajudar, por exemplo, a priorizar seus valores e reorientar suas vidas para comportamentos consistentes com esses objetivos.

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Depois de revelar dores existenciais, de identidade e morte, alguns podem ter caído em uma depressão niilista, na qual abraçam o absurdo da vida e afirmam que nada na vida tem sentido. O niilismo também é um sistema de significado. Ele tem um senso que ajuda as pessoas a entender o mundo “sem sentido”.

Ainda que neste momento seja o aspecto da ponta do iceberg, a pandemia é apenas uma faceta da grande ameaça existencial representada pelo nosso sistema de cosmovisão. O pai de todas as ameaças é o ciclo vicioso da intensificação destrutiva: quanto mais esse sistema luta para se tornar global em um só modo de vida e de ver as coisas, mais destrutivo se torna, humanamente e ambientalmente.

Talvez, a atual pandemia ofereça uma chance de uma virada civilizacional. Para tanto, precisaremos redefinir a forma elementar de sistemas sociais e culturais. Maat é o cosmos, tudo nele ordenado, onde tudo tem propósito, mesmo que não seja compreensível para nós. Como a humanidade pode ter acesso à lógica da ordem se a lógica não existe em seu mundo humano? Afirmo que não podemos e, portanto, o cosmos está bem ordenado. O que importa é o que realmente controlamos: conhecimento e sabedoria.

Fazer uma caminhada à noite de estrelas torna a vida melhor ou mais entediante, neste momento? Talvez se possa encontrar outro caminho, já que experiência apaixonada e comunhão individual são possíveis em qualquer lugar na terra. Por que não ajustar a novos modos de conexão humana para alcançar elementos que tornam a vida melhor? É difícil entender as ações se elas não estiverem ligadas sempre a metas e planos com os quais nos preocupamos.

Toda nossa vida, a qualquer momento, está repleta de informações e coisas sobre o que pretendemos ou esperamos fazer. São elementos imaginários de experiências. A resiliência tem sido uma palavra da moda nos últimos anos. Mas ela é uma força psicológica que reduz o efeito patológico na saúde psicológica. Enfrente, questione e se adapte.

É preciso trabalho e foco para descobrir o que você pode fazer, além de seu relógio e agenda de compromissos. Dê novos passos. Você pode ajudar a fazer e entregar comida para pessoas que não conseguem ir ter acesso ao mercado. Você pode costurar máscaras para as pessoas usarem. Você pode fazer uma ligação para simplesmente conversar com alguém que está sozinho na quarentena. Você pode ensinar o que sabe, só postando um vídeo. Qualquer coisa pode dar novas restaurações e senso de propósito e significado. Se a realidade nossa é virtual, mesmo antes da pandemia, então que esses elementos imaginários possam ser virtualmente presentes.

 

Por Pablo Al Masrii

Kemetismo Brasil

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